 


 

The baby bond

Sharon Kendrick
Sabrina 37  A cegonha chegou!


Copyright  1998 by Sharon Kendrick
Originalmente publicado em 1998 pela Harlequin Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Ttulo original: The baby bond
Traduo: Maria Ceclia Zanlorenzi
Editor: Janice Florido
Chefe de Arte: Ana Suely Dobn
Paginador: Nair Fernandes da Silva
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10Q andar CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil
Copyright para a lngua portuguesa: 1999 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Fotocomposio: Editora Nova Cultural Ltda. 
Impresso e acabamento: Grfica Crculo


PROJETO: REVISORAS




Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos. 
Sua distribuio  livre e sua comercializao estritamente proibida. 
Cultura: um bem universal.




Digitalizao: Palas Atenia
Reviso: Denise Barros






Anglica, o beb e o cunhado!

Anglica no podia acreditar na proposta que Rory lhe fazia. Pedia-lhe para voltar para Londres para cuidar de seu sobrinho rfo. Se as circunstncias fossem diferentes, Angel teria adorado a idia, pois gostava muito de bebs. Mas o pai daquela criana era seu ex-marido, e Rory, o cunhado, que sempre sentira uma atrao proibida por ela!

Bastou um olhar para o pequeno Lorcan para Anglica selar seu destino. Afeioou-se profundamente ao menino, assim como aconteceu com Rory. Restava aos adultos estabelecer um lao afetivo tambm!
 
CAPTULO I


O telefone tocava estridentemente. Angel correu pelo corredor para atender, seus longos cabelos voando em cascata por sobre os ombros.
 Hotel Fitzpatrick. Al?  disse suavemente.
 Angel?
Sentiu o corao bater descompassado ante o som de seu nome. A nica palavra fora dita por uma voz estranhamente familiar. Desorientada, agarrou com fora o fone, o branco das juntas dos dedos denotando sua preocupao. Abriu a boca para falar, mas as palavras lhe faltaram.
Houve uma longa pausa antes da voz masculina repetir o chamado em tom bem alto, fazendo-o ecoar profundamente dentro da cabea de Angel.
 Angel? Angel? Ainda est a?
 Sim  falou quase sem ar, sentindo os pulmes incapazes de suprir sua necessidade, e as pernas fraquejarem.  ...  voc, Chad?
 No. No  Chad.
A negativa foi enftica, e algo esquisito permeou a resposta.
  Rory.
Angel engoliu em seco. Era claro. No diziam que vozes de irmos sempre soavam marcadamente similares ao telefone?
Rory Mandelson. Irmo de Chad, e seu cunhado.
Um homem que ela mal conhecia, no importando quantas vezes j houvessem se encontrado. Um homem em cuja presena sentia-se desconfortvel, talvez pelo fato dele no ter aprovado seu casamento com o nico irmo. Ela, entretanto, nunca se preocupara em descobrir os reais motivos daquele sentimento de desafeto.
Mesmo assim, fora a Rory que ela recorrera quando quisera descobrir o paradeiro de seu marido desaparecido. Sabia que se algum poderia encontrar Chad, era seu irmo.
No quisera envolver a polcia, evitando ter sua vida vasculhada pelas lentes microscpicas dos investigadores. E ignorava a razo de nutrir uma confiana to cega no cunhado.
Instinto, talvez. Quanto mais velha ficava, mais confiana depositava nos instintos. E em seus momentos mais lcidos, Angel reconheceu que talvez a to famosa arrogncia de Rory, sobre a qual Chad tantas vezes se queixara, estivesse embasada em uma inabalvel fora de carter.
O fato  que era difcil manter-se indiferente  personalidade de Rory Mandelson. Havia muito tempo que ela no o via e deixara de se preocupar com aqueles questionamentos.
Ela s queria que Rory tivesse informaes sobre o paradeiro de seu marido para poder repensar a vida e traar novos caminhos para viver em paz. A estranha sensao de perda no era inusitada em casos de separao como o dela. Seu marido havia simplesmente desaparecido.
 Voc o encontrou, Rory? Encontrou meu marido?
Houve um silncio to inquietante que Angel quase podia sentir a tenso percorrer a linha telefnica. Sentiu-se trmula e teve uma premonio terrvel.
A voz de Rory era muito pesarosa quando falou:
 Sim, eu o encontrei...
 Onde est?  exigiu rapidamente.
Angel percebeu uma grande hesitao como se, momentaneamente, as palavras houvessem faltado a Rory.
 Angel, preciso v-la, conversar com voc...
 Diga-me!  insistiu.  Pelo amor de Deus, Rory Mandelson. Por favor, diga-me onde est meu marido.
 Angel...
Algo no modo como ele pronunciou seu nome a deixou ainda mais nervosa. Era um tom de voz que j ouvira antes, um misto de compaixo com condolncia. Quando algum falava daquele modo, podia significar apenas uma coisa...
 Ele est morto, no ?  indagou, descrente.  Chad est morto?
 Sim, est. 
Admitiu, com mais gentileza do que Angel j o ouvira falar um dia. 
 Lamento lhe dizer que Chad morreu em um acidente de carro h oito dias. Eu sinto tanto, Angel.
Morto? O vibrante e tresloucado Chad Mandelson se apagara feito a chama de uma vela?
Angel balanou a cabea freneticamente de um lado a outro, seus cabelos negros batendo pesadamente contra o pescoo.
 No  sussurrou, em estado de choque.  Ele no pode estar morto!
 Eu sinto muito, Angel  repetiu, tentando tranqiliz-la.
Ela estava confusa, mas perguntou-se por que Rory Mandelson estava lhe oferecendo simpatia se ele jamais a aprovara como esposa para o irmo. Alm disso, ela e Chad estavam separados havia algum tempo.
Suspirou. Deveria oferecer algumas palavras de consolo para ele. O nico irmo de Chad. O ltimo parente vivo. Perturbada, forou-se a ser delicada e educada.
 Eu sinto muito tambm, Rory.
 Sim.
Ele agradeceu, embora duvidasse da sinceridade de suas condolncias.
 E quando... quando ser o funeral? 
Outra pausa.
 Acabei de voltar do funeral  declarou com relutncia.  Aconteceu no dia de hoje, logo ao amanhecer.
 Voc j foi ao funeral?  indagou, ainda chocada e confusa.
 Sim.
Ento... No haveria ocasio para rezar pelo repouso de sua alma. Nem oportunidade de dizer adeus a seu marido adequadamente. 
O funeral teria proporcionado a natural e completa ruptura dos laos frente a tudo o que havia acontecido entre os dois.
 Ento no fui convidada  observou ela.
 Eu sinceramente achei que voc no gostaria de ir, Angel. No posso acreditar que algum, estando na mesma situao, gostasse de comparecer ao funeral.
 Cabia a mim decidir isto  falou exaltada.  Voc no poderia ao menos ter me consultado?
 Sim, poderia.  Sua voz parecia vir de um lugar bem distante ao responder  acusao.   claro que sim, Angel. E voc tem razo. Eu deveria ter feito isto. Apenas presumi que acharia muito...
 Muito o qu?
 Muito perturbador. Aps tudo o que havia acontecido entre vocs.
 Quer dizer que as pessoas teriam rido de mim?
 No foi absolutamente o que eu quis dizer! Apenas achei que voc j havia passado por maus bocados o suficiente com Chad, e no pude imaginar uma ex-esposa ali, dadas as circunstncias.
Angel pressionou as unhas dolorosamente contra a palma, como para afirmar-se de que ainda estava viva, porque sentia como se todo calor estivesse sumindo de seu corpo.
 Que circunstncias? Diga-me, Rory.
 Agora no!
As palavras foram ditas veementemente, no dando espao para discusses.
 Eu irei v-la  continuou inexoravelmente.
 No ser necessrio. No vejo necessidade disso agora! No h razo para voc vir para a Irlanda quando podemos falar por telefone. Por que no assume que seu desejo finalmente foi alcanado, j que minha ligao com sua famlia terminou?
 Irei v-la  repetiu, como se Angel no houvesse feito objees.  Preciso falar com voc.
Ela abriu a boca para sugerir que revelasse naquele momento o que gostaria de lhe falar, mas a fechou quase imediatamente. Algo no modo como as sentenas foram proferidas a fez perceber que argumentar com ele seria intil. Chad lhe dissera que Rory jamais aceitava um "no" como resposta.
 Quando?  perguntou, desejando ter foras para lutar. E vencer.
 Na segunda-feira. Estarei a na segunda-feira.
 Segunda-feira?  indagou surpresa.
Por que ele teria tanta pressa em v-la? Quando a nova realidade comeou a fazer sentido na mente de Angel, ela acreditou que tudo estava acontecendo rpido demais. Cedo demais.
Mas Rory obviamente interpretara mal sua resposta.
 Eu pretendia chegar amanh, mas tudo est um caos por aqui. Estou ocupado com...
Hesitou, e Angel achou t-lo ouvido engolir em seco.
 Formalidades  terminou.
Podia imaginar os procedimentos legais decorrentes de uma morte. Ela tambm respirou fundo ao tentar encarar a novidade. Era inacreditvel. Verdadeiramente inacreditvel.
Fechou os olhos e lembrou-se de um longo e quente vero. Uma garota irlandesa sozinha em Londres, trabalhando como bab em uma casa de desconhecidos.
Angel sentira-se inadequada, mas no era de admitir derrotas. No retornaria para casa, para encontrar a me assoberbada de trabalho e aturar os seis irmos que nada faziam para sarem da situao difcil em que se encontravam.
Ento Chad Mandelson entrara em sua vida como um raio de sol. Chad no acreditava em problemas; despistava cada um com aquele sorriso despreocupado capaz de cativar todas as mulheres ao redor. Inclusive Angel.
Na Irlanda, as atitudes de Chad bastariam para classific-lo como oportunista, mas, sozinha e fragilizada na cidade grande, Angel nem se importou com aquilo. Era sua tbua de salvao, por isso se agarrara a ele com todas suas foras.
Chad fracassara como modelo e ator. Fora criado pela me, j idosa, e pelo austero irmo mais velho. Os dois eram to diferentes que tornava-se difcil acreditar terem mesma carne e sangue.
Chad sofrer com a morte da me, ficando muito abalado e pesaroso. Conhecera e se afeioara a Angel naquela poca.
Atualmente Chad estava morto. Morto.
Angel tentou entender aquela nova realidade. Pensamentos obscuros comearam a se desenhar em sua mente, e ela sentiu o telefone escorregar de seus dedos.
Centenas de milhas distante, na Inglaterra, Rory foi surpreendido pelo som do telefone batendo sonoramente contra o cho.


CAPTULO II


Houve uma batida  porta da sala de Angel.
  Visitas! A Sra. Fitzpatrick, a matriarca do Hotel Fitzpatrick, entrou e encontrou Angel sentada, inerte, no sof.
 Angel?
Angel desviou o olhar da fotografia que estivera estudando e tentou se recompor. Mas no era fcil. Estava emotiva demais desde a notcia da morte de Chad e trazia no rosto uma permanente expresso de descrena. Vez e outra lgrimas banhavam seu rosto e no raro secavam sozinhas, tal o estado de prostrao em que ela se encontrava.
 Sim, sra. Fitzpatrick?
Sra. Fitzpatrick parecia mais agitada do que Angel jamais se lembrava de t-la visto. Mais enrubescida do que na vez em que um ganso voara para dentro da sala de estar, minutos antes de o bispo chegar para tomar ch!
Seu forte sotaque irlands estava muito pronunciado, resultado de jamais ter se aventurado mais adiante do que vinte milhas do lugar onde nascera.
 O cavalheiro pelo qual voc estava esperando chegou. Acabou de aparecer em um carro muito bonito!  complementou, uma nota de excitao indisfarvel, a despeito de sua preocupao com Angel.
Ela engoliu em seco e assentiu. Ento Rory finalmente chegara. Aquilo explicava a agitao da sra. Fitzpatrick. Com que freqncia homens altos e estonteantes vagavam pelo Hotel Fitzpatrick?
No, homens como Rory Mandelson certamente no era comuns em qualquer parte do mundo, muito menos naquela regio da Irlanda!
 Gostaria que eu lhe pedisse para entrar?  ofereceu-se a sra. Fitzpatrick.
Angel se remexeu no sof. No sabia a que horas ele chegaria, por isso acordara s seis, apenas para ser precavida. Ainda em estado de choque, vestida de preto como mandava a tradio local, sentara-se to inerte quanto uma esttua durante toda manh esperando por ele.
Os cabelos negros haviam sido ajeitados para trs de modo austero e presos com pentes. Era um penteado que usava todos os dias para trabalhar, mas naquela manh seus dedos pareceram imprprios para ajeitar as madeixas. Algumas mechas j comeavam a escapar na regio de seu pescoo.
 Obrigada, Molly  respondeu baixinho.  Voc se importaria?
 Absolutamente!
A senhora estreitou o olhar.
 E o que acha de eu servir uma dose de brandy para voc, Anglica? Para trazer um pouco de cor de volta a seu rosto?
Ela fez sinal negativo com a cabea. Eram onze horas da manh e no queria que Rory Mandelson a encontrasse com um copo de bebida na mo.
Mal dormira desde aquele telefonema. Permanecera acordada a noite toda, imaginando o motivo de ele se importar em visit-la.
Lembrava-se de que era um advogado conceituado e certamente, por imposio de seu profissionalismo, achara-se na obrigao de prestar seus respeitos  viva do irmo.
 No, obrigada, Molly. No no momento  acrescentou com um sorriso.
 Ento vou faz-lo entrar agora, est bem?
 Poderia ser? Obrigada.
Depois da sada de Molly, Angel colocou a fotografia de volta  mesa-de-cabeceira e entrelaou os dedos. Sentia-se mais nervosa do que em qualquer outro momento de sua vida. No havia motivos para sentir-se assim, j estivera frente a frente com Rory, havia dezoito meses, quando fora oficialmente apresentada pelo irmo.
Era o pesar, provavelmente.
O pesar fazia as pessoas sentirem toda espcie de sensaes. Ficavam vulnerveis e solitrias a princpio. Questionavam o sentido da vida, o que fazer doravante com a prpria existncia.
Ela estivera contemplando uma antiga fotografia de casamento e espantou-se ao contemplar a linda e sorridente garota de olhos verdes. No se reconhecia naquela jovem cheia de sonhos.
Suspirou. Seu marido podia ter deixado de am-la e a abandonado sem uma palavra de explicao, mas o corao de Angel sofria ante a terrvel perda de uma vida to jovem.
O espelho oval pendurado na parede do lado oposto ofereceu-lhe a imagem de seu reflexo quando movimentou a cabea levemente.
Fez uma careta. O vestido preto enfatizava a palidez de seu rosto, e as olheiras revelavam a noite insone. Estava com uma aparncia terrvel.
Mal percebendo o que fazia, ajeitou os cabelos quando a porta se abriu. L estava Rory, a expresso do rosto se enevoando ao ver a pose de Angel. A mo dela caiu ao longo do corpo.
Por que fora flagrada como se estivesse extremamente preocupada com a aparncia, algo que normalmente no merecia tanto sua ateno? 
Provavelmente Rory pensaria que ela dava excessiva importncia  vaidade, mesmo em um momento terrvel como aquele. Encabulada, encarou-o.
Quase se esquecera de como Rory podia simplesmente dominar um ambiente com sua presena. Nascera com um carisma que imediatamente captava o interesse dos demais sem que para isso fizesse qualquer esforo. Uma caracterstica marcante que deixava rastros, como se ele ainda estivesse em uma sala minutos aps ter partido.
Ser que aprendera aquilo em seu trabalho? Como advogado, dominava a todos com sua presena e eloqncia, representando os direitos de seus clientes.
Lembrou-se da expresso de Chad, incapaz de compreender por que o irmo mais velho desistira da oportunidade de armazenar riquezas que iam alm dos sonhos da maioria das pessoas.
Em vez daquilo, lutava a favor dos pobres e no privilegiados, aqueles que normalmente no podiam pagar pelos servios de um advogado de tamanho renome.
Naquele aspecto os dois irmos no poderiam ser mais diferentes. Chad agarrara toda oportunidade de fazer dinheiro que passara em seu caminho.
Rory Mandelson era um homem grande, alto, com a beleza morena do irmo mais novo, mas sem a rebeldia e irreverncia dele.
Rory exalava fora e estabilidade. Para Angel, parecia um enorme e belo carvalho arraigado profundamente  terra.
Ele a encarou intensamente, os lbios com expresso implacvel o que era compreensvel, dadas as circunstncias de sua visita. Mas aquilo no dava pistas de como se sentia.
Havia algo muito disciplinado em Rory Mandelson, Angel percebeu subitamente. No havia pistas do que acontecia em sua mente que pudessem ser percebidas nos olhos azuis, com clios espessos a emoldur-los sensualmente.
A cala de brim preta era a nica concesso sua  ocasio. O suter era verde como as montanhas Wicklow, avistveis em seu esplendor atravs do vidro da janela. Parecia to casual quanto qualquer outro turista.
No que houvessem aparecido muitos ultimamente, considerou Angel. Estavam vivendo um janeiro inusitadamente frio naquela parte da Irlanda.
 Ol, Angel  ele cumprimentou-a suavemente. Os belos olhos azuis perscrutaram o rosto de sua interlocutora, durante um breve segundo, Angel teve a sensao de que aquele olhar era capaz de derrubar todas suas defesas e ler sua alma.
 Ol, Rory  respondeu com voz trmula. 
Levantou-se do sof com o cuidado exagerado de uma senhora e percorreu a sala at postar-se bem diante dele.
Somente ento pde sentir a aura de imensa tristeza que o rodeava, o pesar quase tangvel no abrupto silncio. Os olhos azuis estavam marejados de dor, as feies tensas devido ao esforo de manter o rosto rigidamente controlado.
Angel reagiu instintivamente.
Ficando na ponta dos ps, abraou-o fortemente em um tradicional gesto de condolncias e deixou a cabea pousar, em desconsolo, em seu ombro. 
Esperava ser abraada em resposta. Ela teria agido assim com qualquer pessoa: homem, mulher ou criana. Era uma ao intuitiva, mas Angel sentiu que o corpo de Rory se tornava tenso em sinal de rejeio. Imediatamente baixou as mos, deixando-as pender ao longo do corpo como se no fossem parte de sua estrutura e sim de outra pessoa.
 Sinto muito  balbuciou-lhe ao notar a expresso inabalvel.
Ele era ingls, afinal. Talvez a viva de seu irmo no devesse enlaar seu pescoo com tamanha familiaridade. Podia no ser de bom-tom.
 Sim, eu sei. Todos sentem muito. Ele era jovem demais para morrer.
Teria Rory deliberadamente a compreendido mal?, divagou Angel. Deixara de reagir ao abrao porque ficara embaraado ou surpreendido?
Ansiosa por portar-se de acordo com as exigncias da ocasio, fez um gesto na direo de uma poltrona.
 Gostaria de se sentar, Rory?  indagou formalmente.  Fez uma longa viagem.
Ele contemplou a poltrona que lhe fora indicada, como se duvidasse que seria capaz de acomodar seu corpo.
 No. Ficarei em p, caso no se importe. Fiquei sentado no carro durante horas.
 Uma bebida, ento?
 No. Ainda no.
Seus olhares se encontraram.
 Ento ir me revelar o motivo de estar aqui? Por que veio?
 Ainda no  declarou, e Angel decidiu que jamais encontrara um homem to evasivo quanto aquele.
A ateno de Rory foi distrada por algo. Aproximou-se da mesa lateral e pegou a fotografia de casamento que ela estivera analisando antes de sua chegada.
Fez uma leve careta ao observar as diferentes expresses dos participantes, congeladas no tempo em uma combinao que jamais poderia ser repetida.
 Ento estava revivendo os bons tempos?  inquiriu, a voz rspida e zombeteira.
 Isto  to errado assim?
Sabia que se postava na defensiva e no era para menos. Ser que ele agia assim com testemunhas, acuava-as e as fazia dizer coisas que provavelmente no queriam falar?
  uma das poucas fotografias que tenho de seu irmo.
Ele deu de ombros.
 Perdoe-me se soei irnico  observou friamente.  Mas, como voc sabe, eu sempre achei que o casamento no deveria acontecer...
 Oh sim, sei disto!  rebateu amargurada.  Voc deixou isto muito claro na ocasio.
 Bem como as circunstncias que embasaram minha oposio inicial ao enlace  ponderou.
Fitou-o, horrorizada.
 Voc no tem corao!
Rory no se comoveu com o comentrio.
 Eu seria hipcrita se agora confessasse que aprovo o casamento simplesmente porque Chad est morto.
Angel respirou profundamente, trmula, ao ouvir a palavra fria e definitiva.
 Por que coloca as coisas de um modo to traumtico?  indagou, imaginando se havia algum trao de simpatia naquele homem.
 Preferiria que eu me valesse de eufemismos para o que, na essncia, foi um final horrvel e violento para a jovem vida de Chad? Ele no desapareceu ou adormeceu, sabe disto. Est morto, Angel, e ambos teremos de aceitar isto.
 Voc est deliberadamente sendo brutal?  indagou fracamente.
 Sim  admitiu, notando seu nervosismo.  Algumas vezes a brutalidade  til para fazer as pessoas encararem os fatos.
Fatos. Angel desabou na beirada da poltrona sem pensar se gostaria de obter resposta para a pergunta que estava prestes a formular.
 O que aconteceu... exatamente?
Ele pareceu hesitar, os olhos azuis se estreitando como se, silenciosamente, lidasse com o problema. Mas quando falou pareceu gelidamente calmo.
 O carro dele bateu no canteiro central e... 
Deteve-se ao ver a brancura da pele de Angel. Se a achara plida quando a vira, naquele momento parecia estar positivamente anmica.
 Voc no est pronta para ouvir isto  falou abruptamente.  Precisa de uma bebida.
 No...
 Oh, sim, precisa. E eu tambm. 
Sentindo-se fraca demais para fazer objees, Angel o observou aproximar-se do bar, pegar dois copos e ench-los com uma boa dose de um liquido que ela no conseguiu identificar.
Se no estivesse to chocada com os eventos, talvez pudesse ter lhe dito que pegara os copos errados e que, depois de sua partida, Molly Fitzpatrick a crucificaria por no ter dado a um homem como Rory Mandelson os melhores cristais Waterford!
 Pronto. Beba isto!  instruiu-a ao lhe estender um dos copos de uma maneira aristocrtica.
Angel tomou um gole e achou que o fogo invadia sua boca. O lquido forte imediatamente a fez relaxar. Sem perceber o que fazia, fechou os olhos. Quando os abriu, encontrou Rory sentado a sua frente, encarando-a fixamente. Nem tocara no prpria bebida, notou.
 Voc est bem?  indagou ele.
 Estou bem agora.
 No acho. Est to plida que parece que foi voc quem morreu. Mas talvez isto se deva ao fato de estar vestida de preto da cabea aos ps  acrescentou em tom crtico.
Percebeu a reprovao em sua voz.
 Voc obviamente no aprova minha roupa preta, Rory.
 Certamente minha opinio sobre o assunto  irrelevante. Respondeu simplesmente.  Voc deve usar o que lhe aprouver. E comportar-se do modo como julgar apropriado.
Mas era bvio que ele considerava as roupas de Angel inadequadas! Colocou o copo na mesa, a mo trmula.
Quem aquele homem pensava que era? Viera at a Irlanda sem ser convidado e apresentara-se com uma expresso terrvel no rosto!
Sentara-se ali, parecendo julg-la uma pessoa ftil e superficial, quando todos sabiam que Rory Mandelson tivera mais mulheres em seus trinta e quatro anos do que um homem tinha direito de ter no decorrer da vida toda.
 Oh, pode acreditar nisto  respondeu, desafiadora.  Nunca tema o contrrio, Rory, mas gostaria de saber a que voc tanto faz objees. Acha que no tenho o direito de lamentar a morte do meu marido?
Os olhos se estreitaram a tal ponto que se assemelharam a duas grandes safiras.
 Ele era seu marido apenas no nome, Angel. Desapareceu de sua vida h um ano e meio. Os votos de casamento que vocs com tanto entusiasmo trocaram, acabaram no valendo o pedao de papel no qual foram escritos.
Ela ergueu o queixo.
 Assim como voc previu.
 Sim. Assim como eu previ. 
Angel mordeu o lbio.
 Suponho que tenha ficado satisfeito em saber que suas profecias sombrias se realizaram. Estou certa, Rory?
Ele franziu a testa e riu de um modo totalmente desprovido de humor.
 Se isto me deu satisfao? E o que pensa de mim, Angel? Acha meu ego  to gigantesco a ponto de eu apreciar ver seu casamento em runas simplesmente porque tinha antecipado que isto poderia acontecer?
 Diga-me voc  ela pediu em um tom de voz rspido.
Exasperado, ele se virou e caminhou pela sala at a janela, onde a paisagem espetacular das montanhas momentaneamente o deixou sem fala. Algo que acontecia com pouca freqncia com Rory Mandelson.
Aguardou um momento antes de se virar e apoiar-se negligentemente no parapeito, a posio deixando evidente seu fsico perfeito.
"Teria ele conscincia de que sua figura, com as longas pernas estendidas para frente, cabelos escuros e olhos profundamente azuis, correspondia  fantasia da maioria das mulheres?", pensou Angel.
"Ele devia ter tido a decncia de usar algo sem graa para camuflar o belo corpo. Ou seria sua inteno permitir que a suave trama do suter adornasse to adoravelmente seu torso?"
Angel balanou imperceptivelmente a cabea, reconhecendo, espantada, o caminho trilhado por seus pensamentos. "O que estava fazendo? Tendo fantasias sobre seu ex-cunhado?"
A expresso de Rory tornou-se mais rgida ao perceber o modo como ela o fitava.
 Que espcie de brutamontes eu seria  desafiou suavemente  se desejasse o fracasso do casamento de meu nico irmo? Ora, Angel,  este o tipo de homem que julga que eu seja? No, pensando bem, por favor no responda!
Lanou-lhe um olhar cheio de pesar.
 Quando percebi que vocs dois estavam determinados a viver juntos, ento naturalmente desejei que o casamento durasse.
 Mas ento eu o afastei?
 Eu no sei. Afastou?
Angel balanou a cabea violentamente e mechas dos cabelos negros danaram em espiral de encontro a seu rosto plido.
 Oh, qual o propsito de discutir isto agora? Chad est morto! No vai voltar!
A voz dela falhava diante da constatao, pela primeira vez, de sua prpria mortalidade.
Angel nascera em uma parte quase inacessvel da Irlanda, onde a pequena comunidade encarava a morte com menos temor do que em muitos lugares. Houve vezes em que ela prestou seus respeitos aos familiares diante do corpo no caixo enquanto pessoas riam, bebiam ou choravam ao redor.
A morte nunca a afetara pessoalmente antes, constatou, percebendo que lgrimas comeavam a umedecer seu rosto.
  como se ele nunca houvesse existido  soluou baixinho.  Como se nunca houvesse estado aqui!
Rory franziu a testa diante de seu bvio pesar. Tinha visto Angel chorar apenas uma vez antes, quando Chad desaparecera sem deixar vestgios, e ela fora, inexplicavelmente, pedir-lhe ajuda.
Na ocasio ele no se sentira afetado por seu desespero, j que veementemente a avisara sobre o despropsito daquele casamento.
Mas no presente momento, por alguma razo, achava a viso de suas lgrimas algo insuportvel.
  claro que ele existiu  contradisse-a com suavidade.
Aproximou-se e se acomodou na poltrona que ficava defronte  ocupada por Angel. Pegou-lhe a mo plida entre as suas e a acarinhou de maneira ausente com o polegar.
O consolo fsico era uma migalha, mas mesmo assim Angel experimentou uma extraordinria sensao de calma ao toque daquela mo. Aceitou o leno que silenciosamente lhe foi estendido e enxugou o rosto.
 Voc ainda no me contou detalhes do acidente. 
Pela primeira vez desde sua chegada, Rory sentiu-se verdadeiramente desconfortvel. Ensaiara o que iria lhe dizer vezes e vezes no carro, at em voz alta, e mesmo assim as palavras pareciam curiosamente inadequadas. Em grande parte por causa do olhar de sofrimento dela.
Decidiu tentar uma aproximao diferente da planejada.
 Conte-me sobre a ltima vez em que viu Chad.  Pediu suavemente.
- Mas j sabe de tudo a este respeito! Quando ele desapareceu, eu fui falar com voc.
Fizera aquilo por achar que, se havia algum capaz de rastrear Chad, seria seu dinmico irmo mais velho.
 Na ocasio voc explicou pouco, Angel. Disse apenas que ele havia ido embora  procurou lembr-la.
Porque sentira-se humilhada com a confidencia. Ficara imaginando que espcie de pessoa deveria ser para seu marido a abandonar em poucos meses aps o casamento, daquela maneira, sem lhe dar explicaes.
 Ento conte-me novamente, Angel  insistiu em sua voz grave.  Mas, desta vez, diga-me tudo.
A despeito das reservas que nutrira sobre discutir algo to doloroso quanto a partida de Chad, Angel no pde resistir  fora da personalidade de Rory. Com aqueles olhos azuis analisando-a, era impossvel querer omitir algum detalhe da verdade.
Procurou concentrar-se no que lhe fora indagado embora, para ser completamente honesta, fosse um alvio ter algo mais para focar seus pensamentos em vez de na constatao de que Chad estava morto.
 A ltima vez em que vi Chad ele deixava a casa para ir ao trabalho.  Comeou a falar vagarosamente, remetendo-se  manh vivida h mais de dezoito meses.  Lembro-me de que era um belo e ensolarado dia de junho. O cu estava azul, o sol brilhava e eu iria encontr-lo para um drinque aps o trabalho naquela noite.
 E?
 E nada  respondeu, dando de ombros.  Foi isto.
 Ele demonstrou sinais de que alguma coisa podia estar errada?
Franziu a testa, confusa.
 Errada? O que poderia estar errado?
 Com o relacionamento. Algo que poderia ter indicado a voc que ele planejava desaparecer de sua vida sem dizer uma palavra.
Angel mordeu o lbio inferior. O tempo lhe deu perspectiva. Atualmente percebia que houvera muitas coisas erradas no relacionamento. Mas na ocasio era to jovem. Desabrochava para a vida, determinada a provar a todos os que fizeram profecias ruins que estavam enganados. Daquela maneira, ignorara os sinais de perigo evidentes no horizonte.
Mas deveria dizer a Rory sobre suas angstias mais ntimas naquele momento? No sentia-se capaz de explicar que em poucos meses aps o casamento, a rotina sexual do casal decara sensivelmente.
 Ns no estvamos nos comunicando to bem  balbuciou, no que supunha ser a nica maneira de dizer aquilo. 
 Mas vocs discutiam?
 No. No discutamos. Chad apenas parecia muito distrado durante aqueles ltimos meses. Somente isto.  Pousou o olhar em Rory.  Mas isto tudo  irrelevante, certamente. No  hora de voc me dizer exatamente o que descobriu, Rory?
Houve uma breve pausa.
 Voc quer que eu diga isto aos poucos, com gentileza?
 Seria possvel?
 Na verdade, no  admitiu com relutncia.  Ele tinha outra mulher.
As palavras confirmaram os temores velados de Angel. Sim. Era claro que tinha. Uma parte dela soubera daquilo o tempo todo. Tratava-se do instinto que passava atravs das geraes. Instinto feminino. A parte que registrara a completa falta de desejo do marido por ela quando a fitava. Angel engoliu em seco.
 Chad tinha outra mulher  repetiu Rory, porque a total falta de reao ante sua sentena o fez imaginar que ela talvez no tivesse escutado da primeira vez.
 Sim  balbuciou Angel, suspirando baixinho.  Faz sentido.
 Quer que eu prossiga?
Ela ergueu o queixo orgulhosamente.
 No sou de fugir  verdade, Rory. Por favor, continue. Fale-me sobre esta mulher. Ela tem um nome?
Uma emoo indeflnvel banhou o rosto de Rory, endurecendo sua expresso.
 Jo-Anne. Jo-Anne Price.
Angel torceu o nariz como se o nome encontrasse eco em sua memria.
  australiana. Estou certa? Trabalhava como estagiria na agncia de propaganda.
 Isto mesmo.
 Tinha acabado de sair da universidade  lembrou-se.  E viera obter experincia profissional na Inglaterra.
Angel afastou uma mecha de cabelos da testa, descobrindo que na verdade sabia muito sobre a mulher que apenas vira uma ou duas vezes. Como aquilo acontecera? Talvez Chad houvesse falado sobre ela, e Angel simplesmente nem notara.
  isto mesmo?
Rory assentiu, meio encabulado.
 Sim,  isto mesmo. Chad a conheceu em um bar prximo ao escritrio, arrumou-lhe um emprego temporrio na agncia e subitamente apaixonou-se.
Angel respirou profundamente, atnita com sua crueldade, a despeito de todos seus pedidos para que ele lhe contasse absolutamente tudo.
 ramos casados h menos de um ano  lembrou-se amargurada.  Ento ele no estava apaixonado por mim?
Houve uma pausa desconfortvel.
 Acho que Chad pensava que amava voc, Angel, e por isto se casou.  A expresso de Rory mais uma vez se endureceu ante a dor da verdade.  Mas ento Jo-Anne apareceu e...
 E?  repetiu de modo cido, fitando-o como se aquilo tudo fosse culpa dele.
Rory estendeu as mos em um gesto de desculpas, percebendo que realmente lhe devia a verdade, o quo dolorosa fosse.
 Eu no tinha muita certeza do que o havia atingido. No era apenas um caso. Era algo para toda a vida, se voc acredita que isto exista. Eu, pessoalmente, no. Mas Chad acreditava.
Angel fez uma careta.
 Sinto muito, eu no devia ter dito...
 Oh, sim, deveria!  declarou com firmeza.  Eu lhe disse que gostaria da verdade e  exatamente o que est me dando. E sim, voc est absolutamente correto no que falou, Rory. Chad julgava-se apaixonado por mim, por isto se casou. E ento...
Mordeu o lbio, com receio de prosseguir. Qual o propsito de dissecar seu relacionamento com o marido? Especialmente naquele instante? No. no deveria fazer isso com o irmo dele.
Rory no a incentivou a falar nem a pressionou a continuar. Ficou sentado e levou o copo de bebida  boca para tomar o primeiro gole. Em seguida, colocou o copo cuidadosamente de volta  mesa.
 Chad no teve coragem de lhe contar o que acontecera. Ou a mim, a propsito. Ele e Jo-Anne apenas fugiram para a Austrlia. Queriam evitar contato com qualquer pessoa que pudesse lanar qualquer censura sobre o relacionamento perfeito dos dois.
 Bem, no exatamente, j que eu presumo que a famlia dela more na Austrlia. E a maior parte dos pais no quer que a filha se envolva com um homem casado. Certo?
 Voc tem razo.  Rory franziu a testa.  Mas isto no era problema no caso de Jo-Anne. Toda sua famlia morrera em um acidente. Ela estava completamente sozinha no mundo, e talvez este fato tenha despertado o instinto protetor de Chad, algo que ele nem soubera possuir.
Respirou profundamente, como se as prximas palavras fossem as piores a serem ditas.
Angel mantinha-se sentada, constrangida com aquelas declaraes.
 E isto significava, era claro, que tinham algo muito grandioso em comum. Ambos eram rfos, unidos contra o mundo.
Os olhos verdes de Angel se estreitaram como se algo naquela voz alertasse seu sexto sentido. Uma sensao de perigo.
 H algo mais, no  mesmo, Rory? H alguma coisa que voc no me contou?
Brindou-a com um sorriso, mas Angel tornara-se imune a homens com sorrisos encantadores. Imune  maioria dos homens. Casamentos rompidos tendiam a causar tal efeito nas mulheres.
 Por que no levamos isto tudo degrau por degrau?  sugeriu com tranqilidade, mas seus olhos tinham um brilho diferente.
 Porque voc est escondendo algo de mim!
Ele expandiu o ar que estivera segurando. A intuio das mulheres era algo bem inquietante!
 Est bem ento, Angel - concordou.  Revelarei isto para voc de uma vez. Chad e Jo-Anne foram para a Austrlia e estavam, ao que me consta, extremamente felizes juntos.
 Como conseguiu descobrir isto tudo? No pode ter descoberto tanto depois da morte de Chad. Voc me falou que o acidente aconteceu h poucos dias...
Aquela era uma das perguntas que ele temia responder.
 Meu irmo me escreveu pouco antes do Natal  admitiu baixinho.
 Ele fez o qu?
Angel se levantou, a descrena estampada em seu rosto.
 Por que voc no me falou isto na ocasio?
 Porque ele me pediu especificamente para no...
 E o sangue  mais denso do que a gua, suponho.
 No foi por isto que concordei...
 Diga-me, Rory  interrompeu com sarcasmo.  Se Chad no houvesse morrido, por quanto tempo teria mantido a notcia de seu paradeiro em segredo?
 A deciso no era minha. Era de Chad. Ele queria falar com voc pessoalmente. Cara a cara. No por carta.
 E decidiu me poupar do sofrimento durante as festas de Natal?  ironizou.  Por que postergar o momento da verdade? Certamente gostaria de me ver quando se sentisse capaz de pedir o divrcio.
 Ele precisou agir assim. No poderia viajar at ento. 
Angel o encarou com suspeita.
 Por qu?
Aquilo estava se provando ser mais difcil do que Rory imaginara. Quando fizera os planos de visitar Angel, esquecera-se do impacto que sua cunhada tinha sobre seus sentidos. Subestimara o poder de seus brilhantes olhos verdes.
Por Deus, um homem poderia se perder naqueles belos olhos...
Alm disso, no era justo que ela passasse por tudo aquilo. Buscou um jeito polido de fazer a revelao, mas nada jamais seria apropriado.
 Porque Jo-Anne esperava um filho de Chad  disse-lhe abruptamente, ignorando o prender de respirao de Angel.  E ela estava obviamente impedida de viajar de avio no ltimo estgio da gravidez. Chad queria ver voc, pedir-lhe desculpas por seu comportamento e solicitar o divrcio. E queria que eu conhecesse meu sobrinho  complementou pesadamente.
Fragmentos do que ele dizia comearam a fazer sentido finalmente, e a imagem que se formava na mente de Atxgel tinha conotaes que faziam seu sangue gelar nas veias.
 Quer dizer que todos vieram?  indagou horrorizada.  Jo-Anne, Chad...
 E o beb  concluiu, somente naquele instante notando que suas palavras eram amargas demais tambm para ele.
Angel agarrou o brao da poltrona. Fazia fora para tentar suplantar o medo.
 O que aconteceu?  sussurrou.
 Estavam no trajeto do aeroporto at minha casa  disse-lhe.  No sabemos exatamente o que causou o acidente. O outro motorista estava bbado, mas dentro do limite de velocidade permitido. Chad estava abaixo do limite.  rapidamente respondendo a pergunta que pairava no olhar dela.
Fitou-a por um segundo, fazendo uma pausa antes de tomar coragem para prosseguir.
 Ele tinha mudado, Angel, percebi isto a partir do telefonema. Tornara-se um homem ligado  famlia, orgulhoso de seu beb e nada o teria induzido a fazer uma bobagem. Ele deveria estar perturbado. O beb chorando. Quem sabe? Ningum jamais saber.
UM msculo comeou a pulsar convulsivamente em seu rosto, sinal de seu pesar.
 De qualquer maneira, o carro bateu contra o canteiro central perto do Aeroporto Heathrow. Chad e Jo-Anne morreram instantaneamente...
O corao de Angel quase parou.
 E o beb?
Rory amparou a cabea com as mos, de modo que seu rosto ficou escondido. Ainda sentia um pavor indescritvel.
 Rory! O que aconteceu com o beb?
Ele lentamente levantou a cabea, e suas feies denotavam uma dor to grande que Angel temeu o pior.
Ento Rory subitamente falou em um tom de voz glido mas que trazia um mar de esperana:
 De alguma maneira o beb sobreviveu. Miraculosamente. Sem um arranho. Ele est bem.
 Oh, graas a Deus!  gritou Angel e desabou sobre a poltrona, nem percebendo que lgrimas de alvio inundavam seu rosto.  Graas a Deus!
Rory observou sua gratido, tocado por sua generosidade de esprito.
 Obrigado por isto, Angel  disse suavemente. A reao dela justificava sua atitude em vir v-la.
Tornava o que precisava falar um pouco mais fcil...
 Onde ele est agora?
No tinha certeza se Angel se referia ao marido ou  criana e sabia que seria necessria uma grande dose de sensibilidade caso estivesse se referindo a Chad.
 O beb  complementou.  Onde est? E qual seu nome?
 Ele est comigo  declarou Rory.  Eu o trouxe comigo.


CAPTULO III


Rory antecipara toda espcie de reao quando declarasse que trouxera o sobrinho consigo. Mas a que obteve no se assemelhava nem mesmo a mais remota da lista.
Angel desabou sobre a poltrona e virou-se para encar-lo, muito plida, os olhos verdes cintilando. Parecia to incrivelmente furiosa que ele seriamente pensou em estar prestes de ser espancado.
 Voc quer dizer  exigiu, respirando arfante  que trouxe um beb recm-nascido e rfo para um pas estranho e simplesmente o deixou l fora, no carro?
 Angel...
 Em pleno inverno?
 Angel...
 Que espcie de homem voc  para cuidar de uma criana to nova, Rory Mandelson? Pretendo report-lo s autoridades!
A despeito da situao, Rory sorriu. Que alvio saber que ainda conseguia fazer isso! Era, percebeu, a primeira vez que sorria desde que a polcia chegara a sua porta com a terrvel notcia da morte de seu irmo.
 Mas eu no o deixei no carro.
 Onde est agora?
 Com a sra. Fitzpatrick.
 Com... a... sra. Fitzpatrick  repetiu Angel com vagar, como se estivesse falando em idioma estrangeiro.
Mas aquilo no fazia sentido. Seria aquela a explicao para a agitao e preocupao da dona do hotel naquela manh? Como ela se enganara... Achara que sra. Fitzpatrick sentira-se embasbacada devido  boa aparncia de Rory!
Mesmo assim, sua conduta em relao ao beb parecia um srio caso de negligncia.
 Ento voc chegou aqui esta manh e entregou o beb para a dona do hotel, foi isto?  palpitou com tanta veemncia, como se fosse ela a advogada.  Simplesmente assim?
Ele assentiu, relutantemente impressionado com sua tenacidade. E temperamento! Era mais decidida do que se recordava. E jovem e bonita demais para estar usando aquelas terrveis roupas de luto.
 Mais ou menos  concordou.
 E o que voc teria feito se a Sra. Fitzpatrick houvesse se recusado a tomar conta do beb para voc? Se lhe dissesse que detestava crianas? Ou que era procurada por assassinato?
Daquela vez ele realmente riu, e o som simples e descomplicado o tranqilizou mais do que qualquer outra coisa. Aquilo lhe revelava que mesmo um corao dilacerado pela dor intensa e quase insuportvel da morte prematura de um irmo podia se enternecer. Porque o esprito humano era muito resistente.
 Bem, presumo que voc no tenha procurado emprego no estabelecimento de uma ex-assassina, Angel, mas se eu achasse que a sra. Fitzpatrick era inadequada para ser bab por meia hora ou para lidar com as necessidades de um beb, se tivesse quaisquer reservas a respeito dela, ento naturalmente teria trazido o menino para c comigo.
 Mas voc no queria fazer isto  palpitou, imaginando o motivo.
 No, no queria.
 Por qu?
 Porque achei que seria mais difcil para voc encarar a situao se o visse antes de eu lhe contar tudo.
Sua expresso era sombria.
 Foi muito atencioso de sua parte  observou ela, esperando que seu rosto no mostrasse a surpresa que sentia diante da preocupao de Rory com seus sentimentos.
 Nem tanto  Rory murmurou, e seu tom de voz a fez sbita e inexplicavelmente v-lo como um novo homem, e no apenas a pessoa que se tornara seu parente por causa do casamento.
Engoliu em seco ante a confuso daquela constatao, afastando o pensamento perturbador.
 Eu posso v-lo?  indagou.
Novamente ele sorriu. Mas daquela vez era como o sol rompendo as nuvens, pensou Angel, e aprumou-se."No que estaria pensando?"
Apenas por ter se comportado como uma freira desde o fracasso de seu casamento, no significava que sua personalidade mudara por completo. Era curioso analisar o sorriso do homem quando havia um pobre beb rfo esperando por seus cuidados!
 Claro que voc pode v-lo  disse Rory suavemente.  Est dormindo na cozinha. Ou melhor, dormia quando o deixei l.
 Ento o que estamos esperando?
Angel adiantou-se escada abaixo para a cozinha, que parecia ter sido tirada de um livro sobre a vida rural na Irlanda. Havia um armrio em estilo antigo repleto de pratos, muitos deles trabalhados. De uma forma sobre o fogo vinha o aroma tentador de po recm-assado.
Uma grande mesa de madeira dominava o ambiente. Era entalhada, e revelava marcas de geraes de crianas que fizeram sua tarefa escolar ali.
E bem no centro da mesa estava pousado um carregador de crianas azul-escuro, com um beb dentro...
Sra. Fitzpatrick estivera inclinada, mas aprumara-se assim que ouvira passos. Sua expresso no era apenas de curiosidade ao olhar de um para outro; obviamente exigia saber o motivo de aquele ingls alto e bem-apessoado ter chegado com um beb nos braos e perguntando por Angel.
Tudo que a moa lhe contara fora que seu marido morrera, e o irmo estaria chegando para v-la.
Molly Fitzpatrick planejava descobrir mais sobre o visitante, mas algo no jeito de Rory a avisava de que era melhor no fazer perguntas.
 Eu o deixei sobre a mesa porque no queria que o cachorro lambesse seu rosto!  declarou com seu forte sotaque irlands. A chaleira acabou de levantar fervura, e h po recm-tirado do forno. Eu os deixarei agora. Estarei trocando roupas de cama no andar de cima caso precise de mim, Anglica.
 Obrigada  assentiu, mas sua ateno estava no menino adormecido, quase todo escondido debaixo do cobertor.
Mal ouviu a sra. Fitzpatrick deixar a cozinha.
Aproximou-se do bero porttil e ficou em p silenciosamente, incapaz de ver mais alm dos cabelos sedosos e dos clios em contraste com a pele clara. Uma pequenina mo estava bem fechada e visvel, cada dedo to minsculo que mais parecia pertencer a uma boneca.
Angel sempre adorara bebs, mas aquele era filho de seu ex-marido. A despeito de suas emoes confusas referentes ao final de seu casamento, algo tocou seu corao quando notou o quase imperceptvel subir e descer do peito do menino. Como desejava que acordasse para que pudesse peg-lo no colo.
Olhou para cima e encontrou o olhar de Rory fixo nela. Sentiu-se desconfortvel e enrubesceu, de um modo que no acontecia havia anos.
 Vamos esperar at que ele acorde?  sussurrou.
 Sim  respondeu Rory, os olhos cintilando. Percebera que Angel enrubescia de modo pouco comum nos dias atuais.  Os pulmes dele so potentes demais! Voc nem pode imaginar.  to pequenino  acrescentou quase sonhador, o olhar focado no sobrinho.
Angel observou o quase relutante suavizar da expresso de Rory com certo espanto e ento deu de ombros. Recm-nascidos tinham a habilidade de conquistar a completa ateno das pessoas. Mesmo daquelas que normalmente nunca davam um segundo olhar a bebs.
Havia uma claridade em seu choro que sempre deixava os adultos alertas. Aprendera aquilo observando os irmos mais novos durante a infncia, muito tempo antes de ir para Londres, tornar-se bab e conhecer Chad.
E aquele beb em particular certamente sentia falta da me. Somente um adulto com corao de pedra deixaria de se emocionar.
 Gostaria de um ch?  perguntou suavemente a Rory.
Ele assentiu, parecendo recobrar os sentidos. Passou a mo pelos cabelos.
 Adoraria um pouco de ch. Mas primeiro preciso ir ao toalete. Foi uma longa viagem. Voc poderia me indicar a direo correta?
 Claro que sim  murmurou automaticamente, enquanto pensava como ele conseguia estar com to boa aparncia, as roupas impecveis aps uma jornada difcil com um beb recm-nascido.
Franziu a testa. "Ser que todos os advogados ficavam sempre no controle da situao como Rory Mandelson?"
Mostrou-lhe onde ficava o maior banheiro do hotel. Esperava que sua atitude fosse agradar a Sra. Fitzpatrick e a fizesse esquecer-se de que ele tomara um drink em um cristal inferior. Ento se ocupou em fazer o ch, a mente trabalhando em disparada, andando em crculos enquanto tentava captar o significado de tudo o que Rory lhe dissera.
De vez em quando lanava um olhar de curiosidade para a criana adormecida. Deixou-a descansar, embora ansiasse por ver melhor suas feies.
Era estranho pensar que Chad tivera um filho e que sua vida prosseguiria atravs daquela criana. Deveria ter amado muito Jo-Anne, concluiu, com uma sensao esquisita.
Lembrou-se da reao de Chad quando sugerira que tivessem um beb. Estavam casados havia apenas um ms quando Angel percebeu que nunca haviam tocado no assunto. Nem uma nica vez.
Jamais se esqueceria da expresso em seu rosto quando lhe fizera a pergunta inocente. Vira incredulidade e ento indisfarvel terror. O olhar lhe dissera muito sobre a atitude de Chad a seu respeito, coisas que jamais foram ditas simplesmente porque seria cruel demais.
E como ela se portara frente  reao do marido?
Da maneira como sempre respondera quilo que lhe causava dor. Ignorara, achando que o mal-estar poderia se dissipar como por encanto.
Nunca voltou a falar no assunto novamente.
Temia que Chad a visse como uma garota do interior, fora de moda, ansiosa por ficar descala e grvida assim que possvel. O que no era, sem dvida, o jeito moderno de se levar a vida. Mas para ser totalmente honesta, era seu jeito. E um dos motivos que a levaram ao casamento.
Angel sempre adorara bebs e no apenas por ser a mais velha de seis irmos. Aquilo fazia parte de sua natureza.
Durante toda sua vida adulta lutara contra uma onipresente sensao de inferioridade. Parecia-lhe que uma mulher sempre se sentia inadequada a menos que quisesse competir com o mundo masculino. Trabalhar todas as horas do dia e ganhar bem mais dinheiro do que era necessrio para ela.
Angel no podia pensar em algo pior!
Fez um bule de ch, fatiou o po fresco e passou manteiga em diversas fatias. Em seguida colocou na mesa um pote da gelia de framboesa preparada pela Sra. Fitzpatrick.
Estava no processo de decidir se acrescentaria ou no uma grande poro de queijo de fazenda, para o caso de Rory estar com fome aps a longa viagem, quando ouviu um barulho vindo do bero, seguido de um choro baixinho. Ela disparou pela cozinha para onde estava o beb e ficou observando-o.
O minsculo rostinho j estava vermelho devido ao esforo do choro, e ela no hesitou mais do que um segundo antes de se inclinar e com cuidado tir-lo do bero e o acalentar de encontro ao peito.
O beb estava com fome, sim, mas talvez sentisse segurana em seus braos, ouvindo as batidas de seu corao. Qual fosse a razo, o choro amansou um pouco, e Angel viu-se falando com ele em voz bem suave.
 Ol, rapaz! Quem  este beb lindo? 
A criana resmungou.
 Ento voc  um bebezinho lindo, no  mesmo?  persistiu baixinho.  E vai me deixar dar uma boa olhada em seu rosto em vez de ficar fazendo caretas?
O beb abriu os olhos e a fitou. Apenas por um momento, somente isso, um momento congelado no tempo.
Angel viu-se observando os olhos de um azul-escuro to profundo quanto o oceano, e uma sensao estranha a tomou ao reconhecer que eram os olhos de Chad. E de Rory tambm. Olhos dos Mandelson.
Angel segurou o beb com mais fora ao dar-se conta do quo indefeso era. Estava to perdida em pensamentos que nem ouviu o som dos passos de Rory retornando  cozinha.
De fato, a nica coisa que realmente a alertou sobre sua presena foi a sensao de estar sendo observada.
Virou-se, ainda segurando a criana, e o encontrou atrs dela, os olhos fixos em seu rosto com curiosidade - intensidade.
J o vira com tal expresso antes, mas parecia mais atento do que o usual.
 Achou ruim eu t-lo pego no colo?  perguntou.
 Claro que no, Angel. Por que deveria? Voc  absolutamente brilhante com bebs.
 Sou?  indagou, a aprovao a fazendo sentir-se muito satisfeita.
Olhou para baixo, para os cabelinhos da criana e sentiu uma estranha relutncia em coloc-la de novo no bero.
 Como sabe?
 Bem, estou vendo  falou baixinho.  E Chad sempre falou que voc era a melhor bab de Londres.
 Falou mesmo?
Ficou surpresa em saber que Chad lhe fizera um elogio. Afinal, a separao costumava fazer as pessoas se esquecerem das coisas boas de um relacionamento 6 se concentrarem nas ruins.
 Falou mesmo?  ela insistiu.
 Sim, falou  comentou, os olhos fixos no pequenino beb, fascinados.
Poderia Rory ver o irmo naquela criana?, pensou Angel, tentando conter as lgrimas que ameaavam desabar.
Se chorasse, seria por autocomiserao. Aquela era uma perda de Rory, no dela, e Angel deveria ser forte. Chad no fizera parte de sua vida de verdade, at mesmo antes de sua trgica morte.
Como se percebesse-lhe a inquietao, o beb comeou a gritar, mexendo a cabea freneticamente enquanto, movido pelo instinto, tentava levar a boca na direo do seio de Angel.
 Est com fome  declarou, erguendo o olhar para encontrar a expresso triste de Rory.
Desejou que o cho se abrisse para a esconder.
 Sim.
Angel temia que ele fizesse referncia  busca da criana por seu seio vazio.
Mas Rory nada falou. Meramente deu um sorriso triste e aproximou-se da grande sacola que obviamente deixara na cozinha com a sra. Fitzpatrick. Tirou uma mamadeira, tal qual um mgico tirava um coelho do chapu, e Angel suspirou, aliviada.
 Eu tive uma rpida explicao sobre como preparar uma mamadeira  declarou secamente.  E agora sou um especialista.
 Eu posso aquec-la para voc?  perguntou ansiosa, querendo tranqilizar a criana.
 Claro. A menos que voc queira que eu faa isto enquanto o segura.
 Acho que estou um tanto distrada  comentou. Ele lhe lanou um olhar de genuna compreenso.
 Sim, claro. Deixe-me peg-lo.
Estendeu as mos, e Angel com cuidado colocou a criana em seus braos.
 Acho que est molhado  murmurou em tom de desculpas ao pegar a mamadeira.
 Ento  por isto que voc queria se livrar dele  brincou, e a provocao pareceu evaporar a tenso que o beb faminto provocara.
 Deve estar desesperado por ver a me  observou Angel, tentando manter a voz tranqila apesar do n na garganta.  No acha que ele sente muito sua falta?
 Na verdade no. Conversei com um psiquiatra infantil logo aps o acidente. Ele me falou que bebs jovens assim so movidos apenas pela necessidade de sobrevivncia. So mais fortes do que pensamos. Pode ter sentido falta da me muito brevemente, mas  jovem demais para ter formado qualquer tipo de lao profundo com ela. Ir transferir sua dependncia para a prxima figura estvel que fizer parte de sua vida.
 E ser voc, suponho?  perguntou enquanto aquecia a mamadeira em banho-maria.
 Serei eu  concordou.
Angel testou a temperatura do leite no pulso. Percebeu que Rory ainda no lhe dissera o motivo de ter vindo  Irlanda.
Havia algo mais que no havia lhe contado tambm.
A mamadeira aquecida estava em sua mo quando se virou, o corao batendo bem forte ao v-lo ninando o sobrinho com imensa ternura.
Era uma atitude Rory que ela jamais imaginara presenciar. Sempre o vira como o cunhado que a desaprovava e, dedicado apenas ao trabalho.
 Qual o nome dele?
 Mmm?  murmurou ausente, como se estivesse a milhas de distncia.
 O nome do beb. Voc no me falou qual seu nome. Rory no respondeu de imediato, apenas estendeu a mo para pegar a mamadeira e a levou as lbios da criana- O nico som na cozinha era o bater do velho relgio.
Angel aguardou pacientemente. Supunha que a considerao dele antes de dar a resposta fazia parte de seu treino nos trmites legais. Advogados sempre deviam medir as palavras. Mesmo assim, apenas perguntara o nome do beb e no um segredo de Estado!
 No tenho certeza se voc ficar particularmente satisfeita em ouvir.
 Por Deus, Rory Mandelson  falou, sua expresso fazendo-o sorrir.  Que espcie de nome ?
Rory tentou rir diante de sua tentativa de fazer humor, mas o som no pareceu o de um riso. Em poucos dias todo seu mundo virar de cabea para baixo e, para ser perfeitamente honesto, apenas desejava se deitar na cama mais prxima e dormir durante um dia inteiro.
Como se pudesse ler sua mente, o beb se remexeu, e Rory lanou-lhe um olhar carinhoso mas resignado ao perceber o que estava acontecendo!
 Seu nome  Charles  falou em tom pesado.
  mesmo?
Angel arqueou as sobrancelhas e uma inusitada amargura invadiu sua voz.
 Mas que egosmo da parte de Chad dar ao filho o prprio nome!
Rory deu de ombros.
 Talvez no seja to simples assim, Angel.
Ajeitou o beb no ombro e comeou a dar tapinhas bem leves em suas costas como um especialista, recebendo o olhar admirado de Angel.
 Foi registrado como Charles Rory, na verdade, e planejavam cham-lo de CR. Aparentemente  muito popular chamar crianas por suas iniciais...
 Na Irlanda no  interveio Angel.  E estas iniciais em particular mais se parecem com uma espcie de exame que se faz em hospital!
Rory franziu a testa.
 Bem,  claro que ele no precisa ser CR De fato, nem mesmo tem de ser Charles Rory. Quero dizer, pode ser chamado do modo como ns...  Ele franziu a testa e corrigiu:  Pode ter qualquer outro nome.  pequeno e ainda no se acostumou a qualquer nome em particular.
 Mas foi batizado?
Seus olhares se encontraram.
 No.
Aquilo no a surpreendeu. Chad se opusera a seu desejo de se casar na Igreja e era contra religio em geral. Angel estivera encantada demais com sua primeira experincia de amor romntico para analisar as implicaes de diferenas to fundamentais entre ela e o futuro marido.
Teria seu irmo as mesmas reservas sobre os sacramentos da Igreja?
 Bem, o que o est preocupando?  perguntou Angel.
 Voc acha que eu o deveria batizar?  Rory questionou, ajeitando a criana para lhe dar a segunda metade da mamadeira.
 Sim, acho  foi a resposta firme de Angel, baseada no instinto e no na racionalidade.
O pequeno j havia perdido uma parte imensa de seu mundo, ento por que no lhe dar a proteo dos sacramentos?
 Desta maneira voc o poderia chamar do modo como preferisse. O nome no certificado de batismo no precisa corresponder ao do registro. Mesmo assim ele sempre ter o nome que seus pais lhe deram  raciocinou.  Quem sabe um dia deseje resgat-lo.
Rory a fitou por um momento e respirou profundamente, percebendo a importncia daquele instante.
 Se eu concordar em batiz-lo, Angel  murmurou, a voz to baixa que ela mal o ouvia , voc consideraria a hiptese de voltar  Inglaterra comigo para cuidar dele?


CAPTULO IV


Angel encarou Rory. Estava to assustada que mal conseguia respirar.
 Fala srio?  sussurrou ela.
 Nunca falei to srio em toda minha vida.
 Voc quer que eu tome conta...  Considerou falar C.R., mas no conseguiria dizer as letras sem fazer uma careta.  Do beb?  terminou, incrdula.
 Acha realmente um pedido estranho, Angel? Particularmente a algum que est acostumada a cuidar de crianas?
 Bem,  claro que  esquisito!
 Por qu?
Ele usara o tom questionador e incisivo de um advogado profissional!
 Pense bem.
 A nica coisa que tenho feito  pensar durante os ltimos dias, Angel!
Seus olhos estavam arregalados ao encar-la, e a profunda angstia em sua voz a fez ter vontade de abra-lo. Mas lembrou-se de sua reao quando ten-. tara lhe oferecer conforto e limitou-se a pegar o bule e colocar o ch nas xcaras.
 Fale-me de suas objees!  ele a desafiou.
 No estamos falando de qualquer beb! Voc certamente tem conscincia disto!
Colocou a xcara dele sobre a mesa, percebendo que tremia. Seria porque o olhar de Rory estava pousado nela de uma maneira terrivelmente intensa, fazendo-a sentir-se irrequieta?
No costumava ser to impressionvel assim. Respirou profundamente.
 No, no  qualquer beb  concordou.  Ele  meu sobrinho...
 E filho de meu ex-marido!  acrescentou com amargura.  O filho que ele teve com outra mulher!
"A mulher pela qual Chad me trocou", devia ter acrescentado, mas resistiu. No era hora de recriminaes.
 Que diferena isto faz? 
Angel suspirou.
 Seria extremamente fora das convenes eu cuidar dele. As pessoas falariam.
 Mas Chad no  seu ex-marido  corrigiu-a pragmaticamente.  Como jamais se divorciaram, voc agora  viva dele, Angel. H uma diferena, sabe disto. E quanto ao falatrio das pessoas... Bem, uma coisa eu aprendi. Sempre comentaro alguma coisa. Deixe que falem.
Ele sabia como ser persuasivo. O brilho suave de seu olhar era capaz de derreter um bloco de gelo.
 Certamente percebe que haveria problemas se eu aceitasse cuidar dele, Rory. 
Argumentou, imaginando se ele agia da mesma maneira com todas as mulheres. "Teria recorrido a uma de suas sofisticadas amigas londrinas para solicitar que se tornasse bab daquela criana? De alguma maneira Angel no conseguia visualizar a cena. Ento ser que Rory a via como uma sitiante inocente, capaz de ser manipulada?"
- Que espcie de problemas?
Ficou imaginando por que ele tornava tudo aquilo deliberadamente difcil. 
 Voc sabe.
 No at que me explique  ponderou, ainda com aquele tom neutro que a fazia ter vontade de sacudi-lo.  Ler mentes nunca fez parte de meus talentos.
 No importa a legalidade da situao  falou Angel com cuidado, determinada em no sucumbir ao sarcasmo.  O que importa  que este beb ...
Sua voz falhou. Apesar de suas reservas, lembrou-se do forte vnculo que sempre existira entre ela e bebs. Algumas vezes suspeitou de que se estivesse diante de uma escolha entre um belo ator de cinema e um minsculo beb indefeso, optaria pela criana, sempre! Pelo menos bebs no davam decepes.
  o qu?
  filho de Chad!
 Ento isto significa que voc ainda est to aborrecida com o abandono de Chad que simplesmente no pode cuidar desta criana? Porque ela o faria lembrar-se demais do homem que amou...
 E perdeu?  complementou Angel.
Rory deu de ombros ao pr a mamadeira vazia sobre a mesa e colocar o beb acomodado de encontro a seu corpo.
 Se preferir assim...
Os olhos de Angel cintilaram de raiva.
  assim que voc me v, Rory? E como o restante do mundo me v tambm? Sou uma espcie de vtima pattica por que fui abandonada por meu marido?
Ele no correspondeu a seu olhar de acusao. Longe disso. A expresso de seus olhos era muito suave, quase... Angel podia jurar haver aprovao ali.
 No, eu certamente no a vejo como uma vtima, Angel. E se fosse assim, nem teria sonhado em sugerir que voc cuidasse deste beb. Vtimas no tendem a ser adequadas para lidar com crianas.
 Bem, por que me convidou?  inquiriu com curiosidade.  Por que eu, quando poderia ter contratado pessoas melhor treinadas na Inglaterra? Por que uma garota irlandesa sem diplomas, somente com a experincia de ajudar a criar os irmos e um perodo como bab em Londres?
 H o fato de voc declaradamente adorar bebs. Esta  uma grande qualificao em minha opinio.
Angel mordeu o lbio.
 Mas voc no pode saber disto! Est apenas se baseando no que Chad lhe falou.
 Bem, eu a vi agora  observou.
 Apenas durante alguns minutos!  um julgamento muito rpido.
 Observo a natureza humana todos os dias em meu trabalho. E sou hbil o bastante para reconhecer quando algum est sendo sincero.
Olhou para ela, e Angel sentiu-se tragada pelo profundo azul daquele olhar.
 Voc estava a milhas de distncia quando eu entrei na cozinha pouco tempo atrs e a vi ninando a criana de encontro ao peito. No fazia idia de que estava sendo observada, e no havia disfarces nem como negar que voc realmente gosta de crianas. E deste beb em particular. Seria uma me maravilhosa.
 Obrigada, Rory  falou baixinho diante do elogio inesperado.
Quase se permitiu acreditar naquilo, at recordar-se de que aquele era o homem que na verdade a tentara impedir de casar-se com Chad.
Fora v-los no apartamento de Chad certa noite e aceitara o convite para jantar, elogiando o espaguete preparado por Angel e insistindo em levar uma garrafa de vinho para acompanhar a refeio.
Angel pensara que a noite transcorreria com tranqilidade. At que Rory se levantou para ir embora, fitou a ambos e falou em voz muito controlada: "Se querem meu conselho, o que provavelmente no desejam, eu lhes digo para no se casarem. Quero dizer, por que se incomodar?"
Angel ficara ultrajada.
E a oposio de Rory apenas parecera lanar mais lenha  determinao de Chad em ir adiante para selar o compromisso.
Angel olhou para Rory naquele momento e decidiu lhe fazer uma pergunta que no tivera coragem de proferir naquela poca.
 Por que se opunha tanto ao casamento, Rory?
 Angel  falou suspirando.  Devemos falar sobre isto?
 Sim! Devemos! Voc no pode honestamente esperar que eu considere sua sugesto de cuidar deste beb at que tudo esteja aclarado. O que no gostou em mim? O fato de eu ser uma garota simples da Irlanda? Incapaz de usar a faca certa e o garfo adequado  mesa de jantar?
 Angel Mandelson  falou com seriedade.  Se eu no estivesse segurando este beb, acho que levantaria desta cadeira e a chacoalharia por dizer coisas to tolas!  Comeou a afagar o sobrinho.  No era questo de eu no gostar de voc. Minha preocupao era para com seu relacionamento com meu irmo. Se quer mesmo saber, eu desaprovava o casamento porque achava que vocs fundamentalmente no combinavam.
 Em que aspectos? Voc apenas me viu em poucas ocasies.
  verdade. Mas conhecia muito bem Chad e sabia o quo volvel poderia ser. Tambm sabia que meu irmo havia sido muito mimado por nossa me e conseqentemente acreditava que poderia possuir tudo e todos.
 Pode explicar melhor?  inquiriu, intrigada.
 Esquea.
 De jeito nenhum! Voc no pode falar algo assim e ento me pedir para esquecer.
 Voc no vai gostar  avisou.
Os olhos cor de esmeralda lanaram chispas.
 Sou uma garota crescida, Rory. Posso lidar com aborrecimentos.
 Acho que ele queria se casar porque voc no era acessvel.
 No faz sentido! Como eu poderia ser inacessvel se concordara em me casar com ele?
 Acredito que havia condies para voc concordar com o casamento  murmurou astutamente.  No havia?
Angel ficou imvel.
 O que quer dizer?
 Eu lhe disse que no gostaria...
 Apenas diga-me.
 Suspeito de que voc tenha se recusado a fazer sexo com ele at que estivessem legalmente unidos. Acho que Chad provavelmente viu nisto um desafio, encarando voc como um prmio, uma das poucas coisas que o dinheiro no poderia comprar  terminou de maneira relutante.
Angel colocou trs colheres de acar no ch, muito mais do que normalmente consumia. Sabia que acar era calmante, algo fundamental para abrandar o estado de choque em que estava.
Ficou mexendo o ch em silncio at que esfriou e, somente quando tomou metade da xcara, virou-se para ele, a mgoa profunda evidente nos olhos verdes.
 Chad lhe falou isso?  indagou com voz trmula, ferida por seu ento marido ter revelado algo to pessoal.
 No, no falou.
 Ento se Chad no lhe disse que eu era virgem, como poderia saber? Partilhe alguns de seus segredos de observao da natureza humana comigo, Rory.
Ele pareceu hesitar antes de falar.
 Normalmente tenho muita facilidade com as palavras  falou secamente  mas este no  um assunto do qual costumo falar com freqncia. Mas, j que perguntou, vou lhe dizer. Sua inocncia era to bvia quanto o nascimento do sol no horizonte. Brilhava ao redor de voc como uma aura.
Uma maneira muito lisonjeira de colocar a situao, pensou Angel.
 Era raro para uma mulher de sua idade ainda ser to inocente.
 Mas eu tinha vinte anos!
 Mesmo assim era raro  murmurou.  Principalmente entre as mulheres que Chad... e eu, a propsito, tnhamos o hbito de namorar.
Agora sim ela estava confusa!
 Mas se era este o caso, ento por que voc fez objees ao casamento, Rory? Certamente se seu palpite era correto, ento a esposa de seu irmo realmente possua tal inocncia. No era uma qualidade admirvel?
Ele balanou levemente a cabea. Seu irmo estava morto. Qual o benefcio de explorar o assunto, dizer como se sentia em relao ao finado casamento de Chad com Angel? Para que falar de um tesouro que no fora verdadeiramente apreciado em sua beleza?
 Eu simplesmente no achava que eram compatveis  falou de modo definitivo.
 Percebo.
 E eu tinha razo. No  mesmo?
 Sim, voc tinha razo.  Fitou-o longamente.  E mesmo assim voc ainda quer que eu largue tudo e v para a Inglaterra com voc para ajud-lo a criar seu sobrinho. Fico imaginando o porqu disso. Por que no foi s respeitadas agncias de babs em Londres e encontrou uma pessoa que poderia fazer o trabalho sem lhe causar qualquer pesar?
Um sorriso brincou nos lbios de Rory.
 Por qu? Voc est planejando me causar transtornos?
Mas ela deliberadamente no respondeu  sbita demonstrao de charme.
 Sabe o que eu quis dizer, Rory. Responda  pergunta.
 Est bem, eu lhe direi. Eu a quero porque voc adora crianas, mas a razo principal  achar que voc seria mais terna com este menino do que as outras.
 Voc quer dizer, porque fui casada com o pai dele?
 Exatamente.
 E quanto a minha vida aqui?
Rory olhou ao redor, contemplando a grande e antiquada cozinha. Era acolhedora e parecia pertencer a um lar, com o cheiro de po preenchendo todo o ambiente.
Angel estava em p no centro, mortalmente plida em contraste com as roupas pretas. Franziu a testa. Tudo estava to errado. Como era ruim contemplar sua juventude e beleza em um lugar esquecido por Deus como aquele.
E embora a estivesse procurando para ajud-lo, talvez tambm a pudesse salvar de um destino vazio.
 Que vida?  indagou com brutalidade.  Voc voltou para a Irlanda quando seu casamento fracassou. Mas para qu? Para envelhecer antes do tempo, carregando bandejas de ch para turistas? Para sair apenas para fazer compras para o hotel? Para ser vista como uma mulher amarga cujo marido desapareceu, abandonou-a?  isto que deseja para o resto de sua vida, Angel?
Colocadas daquela maneira, as palavras soavam muito cruis.
E to verdadeiras. Mortificada, procurou rebater.
 Mas no sou apenas uma mulher cujo marido a abandonou. No mais. No agora que Chad est morto. Como voc corretamente falou, sou uma viva, Rory. Isto no me d o respeito que, segundo voc, eu perdi?
 O fato de voc ser atualmente viva  puramente acadmico. E apenas uma palavra, apenas isso. Uma palavra que voc sem dvida usar como escudo para se proteger e se esconder. E  uma palavra muito poderosa, Angel, no tenha dvida. Algumas mulheres a usam como uma concha protetora para se manterem distantes do restante do mundo, bem seguras. E  o que talvez acontea com voc, caso fique aqui.
As palavras de Rory traduziam a verdade, mas mesmo assim ela sentia vontade de lutar.
 Bem, ento  esta a maravilhosa alternativa que me oferece? Um beb jovem assim precisa de ateno constante, bem sabe. No pode apenas ser transferido de um lugar para outro. Precisa de uma influncia estvel, qualquer coisa em contrrio no seria justo. A pessoa que cuidar dele acabar criando um lao muito grande com a criana.
 Bem, est bem...
Ela balanou a cabea, impaciente.
 Quantos anos voc tem? 
Ele franziu a testa.
 Trinta e quatro. Mas o que isso tem a ver com o assunto?
Angel mordeu o lbio.
  casado?
 Claro que no sou casado!  explodiu.  Eu jamais viria at aqui e lhe pediria isso se tivesse uma esposa em casa para me ajudar.
 Ento o que acontecer quando voc conhecer a mulher de seus sonhos e decidir se casar? Ela no vai querer partilhar voc e o beb com outra. E por que deveria?
Angel podia antever a cena muito bem. Chegaria o dia em que teria de abandonar a criana que passara a considerar como sua. Rory surpreendeu-se com aquele raciocnio.
 Ento eu serei posta de lado!
Assim que falou as palavras, arrependeu-se. Estava se pintando como uma espcie de fardo. Uma vtima. E no prometera a si mesma, e a ele, que jamais faria tal papel?
 No! Agora  sua vez de me ouvir, Angel. Ningum pode olhar para o futuro e predizer o que vai acontecer. Eu no pretendo fazer isso. Quero apenas lhe garantir que pretendo partilhar a responsabilidade de criar este beb, e se isso significar reduzir minhas horas de trabalho, ento ser assim. E caso encontre a mulher de meus sonhos...
 Sim?
 J vivi bastante. No acredito em contos de fadas, em encontrar a felicidade ao lado de uma nica mulher.
Angel nem mesmo percebera que prendia a respirao no aguardo pela resposta at dar um longo suspiro.
Se ele ouviu, no fez comentrios, apenas abriu a roupinha do beb.
- Preciso dar um banho nele e troc-lo  falou decidido.  Enquanto fao isso, gostaria que pensasse em minha sugesto e depois me deixasse saber qual  sua resposta. Seja qual for, gostaria de voltar para a Inglaterra amanh. Enquanto isso...
O beb abriu os olhos, e Rory fez uma pausa para observ-lo.
Angel sentiu uma miscelnea de emoes passar pelo rosto dele ao contemplar o pequeno sobrinho.
Viu arrependimento e dor, mas tambm muito amor. E foi aquele amor que a tocou. Rory realmente amava aquela criana, percebeu, com muita admirao.
Queria o melhor para o beb. Quantos homens solteiros em sua idade e to bem-sucedidos na carreira abraariam uma responsabilidade to imensa como aquela?
 Enquanto isso...  repetiu vagarosamente, ainda hipnotizado pelos lindos olhos azuis da criana, quase idnticos aos seus.
 Enquanto isso...  repetiu Angel vagarosamente.
Algo no tom de sua voz o fez fit-la.
 O qu?  sussurrou Rory.
Angel retribuiu o olhar, consciente de que ele relaxara ao interpretar-lhe a linguagem corporal. Sabia muito bem que havia alcanado o que planejava! Seria ela realmente to transparente ou Rory excepcionalmente perceptivo?
A voz de Angel foi muito suave.
 Bem, ainda no decidimos como devemos cham-lo, decidimos?


CAPTULO V


A paisagem do interior se desenrolava em uma sucesso de diferentes tonalidades de verde. Uma velha cano dizia que eram quarenta tonalidades, mas Angel poderia contar no mnimo cem.
Aqui e acol a cor cinza de um chal de pedra se desenhava e parecia se emendar ao cu. Era um dia frio e sombrio, a paisagem nua e dura. No se via uma s pessoa desbravando o sibilar do vento.
Angel estremeceu, embora o interior do carro estivesse bem aquecido pelo ar-condicionado e um vento suave e morno banhasse agradavelmente seu rosto.
Olhou  frente, imaginando o que a aguardava. Rory estava to silencioso desde a partida do Hotel Fitzpatrick que talvez estivesse finalmente liberando seu pesar, aps ter alcanado seus propsitos na Irlanda.
Mas a sensao de perda no vinha em ritmo constante e sim em ondas. s vezes o desconforto era quase tangvel. Em seguida, longos intervalos de dormncia cuidavam de fazer as informaes assentarem. E ento a apreenso retornava.
Olhou para o lado e notou a rgida mscara que lhe endurecia as belas feies. Logo viria a pausa, pensou.
Fizera as malas em menos de uma hora, vendo pouca necessidade de ficar no Fitzpatrick at o dia seguinte.
Pesara as dificuldades que enfrentaria para estabelecer um bom relacionamento com o beb e com Rory, especialmente sob o olhar atento e protetor da comunidade da qual participara havia dezoito meses. Seria como viver sendo constantemente analisada pelas lentes de um microscpio!
Por isso decidiu que seu futuro estava mesmo na Inglaterra. Assim, sob os pedidos de cautela da sra. Fitzpatrick, ela deixara o hotel que fora seu lar desde o fracasso do casamento.
Aceitara um trabalho na Inglaterra, atendendo  fora do apelo de um homem que sem dvida era mestre em manipulao verbal.
E ali estava Angel, procurando entender sua deciso impetuosa. Nem mesmo telefonara  me para lhe contar sobre sua abrupta mudana de planos. Ainda no reunira coragem para fazer aquilo.
Sua progenitora no era uma tirana que tentava influenciar a vida da filha mais do que outras mes faziam. Angel apenas no sabia qual seria sua reao quando descobrisse que ela retomara contato prximo com a famlia Mandelson.
Seus familiares nunca gostaram de Chad. Mesmo antes de ele ter ido embora, abandonado-a. Sua me se queixara, alegando que ele tinha um aperto de mo fraco e no a fitava nos olhos apropriadamente.
Quem os poderia culpar se pensassem que Rory era farinha do mesmo saco? Suspeitava de que ouviria um bom sermo sobre ter fugido do fogo para cair na fri-gideira e no se sentia preparada para ouvir aquilo. Certamente no naquele dia.
O carro se esgueirou por estradas estreitas, e Angel manteve o olhar fixo na pista. No era agradvel nem mesmo fcil. De fato era tremendamente difcil, mas era melhor evitar fitar continuamente o homem a seu lado.
Talvez fosse uma reao normal. Quem no o encararia, dadas as circunstncias?
No via Rory havia bastante tempo e estava voltando  Inglaterra com ele. Era motivo suficiente para contemplar as feies duras e implacveis, tentando entender aquele estranho poder e charme que ele tinha.
Sua fascinao nada tinha a ver com o jeito com que os cabelos escuros vez e outra invadiam a testa. A nica pista de que talvez Rory Mandelson no fosse to controlado quanto aparentava.
Com esforo, Angel olhou por sobre o ombro, sua expresso automaticamente suavizando-se.
No banco de trs o beb dormia como... bem, como um beb! Um beb, acima de tudo, ainda sem nome. Angel divagou, conforme fazia desde que soubera que o infante chamava-se CR.
 O que acha de ele se chamar Fergus?  sugeriu.
 No gosto  falou imediatamente.  Tive um colega de escola chamado Fergus, e ele era terrvel. Oh, Deus! O que  aquilo?
Adiante, uma enorme vaca branca e preta repousava no meio da estreita estrada vicinal, bloqueando-a completamente. Suspirando, Rory baixou a velocidade do carro e parou.
 Chamamos de vaca  respondeu, tentando no rir ao v-lo apertar com fora o volante.  Tem quatro patas e algumas tetas que proporcionam leite e queijo para a populao em geral. Algumas pessoas apreciam comer sua carne tambm, particularmente assada, aos domingos, com uma boa poro de vegetais.  uma criatura muito til e certamente no merece ser desprezada assim!
 Muito engraado!  desdenhou, dando-lhe um olhar de soslaio e notando que ela parecia bem mais  vontade, quase relaxada.
Sempre parecera levemente nervosa ao lado de Chad. Uma boa mulher, pensou, o corao suavizando. Angel mostrava tranqilidade.
 Ento o que vamos fazer para afastar o animal?
 Voc pode sair e tentar lhe dar um tapinha no lombo  respondeu Angel meio em dvida, imaginando por que um trajeto que ela j percorrera milhares de vezes antes parecia engendrar a maior aventura de sua vida. Isto dizia muito sobre sua existncia atual, sem dvida. Rory olhou para o animal.
  isto que os homens locais fariam?
 Deve estar brincando! Eles iriam para o bar mais prximo e aguardariam at que o animal se movesse espontaneamente.
 E se estivessem com pressa?  indagou, franzindo a testa.
 Estamos na Irlanda, Rory. No em Londres! Se sua jornada no pode esperar, ou tenta espantar o animal ou vira o carro e escolhe um caminho alternativo.
 E o que devemos fazer?
 Depende. Estamos com pressa ou no?
Rory deu de ombros, s ento percebendo como a regio de seu pescoo estava tensa. Ele naturalmente presumira que estava com pressa. Por que no? Sempre agira apressadamente e, como todo hbito, aquele era difcil de ser mudado.
 Bem, temos de pegar a balsa catamar.
 Quando?
 Amanh. Em Rosslare.
 Bem, ento... Faria muito bem ao beb sair do carro um pouco. Por falar nisto, recuso-me a cham-lo de "o beb". Ento, j que voc rejeitou todos os nomes que eu escolhi, poderia, por favor, ter alguma idia?
Ele coou o queixo, e Angel o fitou em expectativa.
 E ento?
Houve uma pausa.
 Lorcan  Rory falou.
 Lorcan?
 Isto mesmo. Meu melhor amigo de faculdade chama-se Lorcan. Gosta?
Angel virou-se e contemplou a criana adormecida, admirando novamente os clios espessos e a rosada maciez de sua pele de beb.
Tentou saborear a palavra. Lorcan. No era como Charles, ou Chad, ou o terrvel CR. Ento no haveria lembranas tristes evocadas cada vez que seu nome fosse pronunciado.
Lorcan. Um som parecido com sim ecoou em algum lugar profundo de seu subconsciente. Era um nome peculiar, assim como o beb tinha uma histria de vida diferente. Era diferente por no ter pais.
O que lhe fora ensinado na escola por uma das gentis freiras idosas, havia um tempo enorme? Que no havia nada de errado em ser diferente. Ao contrrio, diferenas faziam do mundo um lugar interessante.
Lorcan.
 Sim, eu gosto. Gosto muito  acrescentou suavemente, despreparada para o sorriso que se desenhou no rosto de Rory, iluminando seu rosto de um modo como nunca vira antes.
Algo alm do controle de Angel fez seu corao bater dolorosamente em resposta.
 O que significa?  indagou rapidamente, mais em um esforo para distrair-se do que desejo imediato de saber.
 No fao a menor idia, mas tenho certeza de que no envolve algo sinistro. Nomes nunca envolvem. Meu amigo Lorcan tornou-se promotor, o que  um excelente pressgio.
Pressgio. Talvez a morte de seu irmo o tivesse tornado supersticioso, pensou Angel.
  assim que ns o chamaremos  disse ele.
A palavra "ns" encontrou um eco especial na mente de Angel. Era bom ouvi-la; soava como algo correto e adequado.
 Sim, acho que devemos  concordou com vagar, pensando ser aquela a primeira deciso tomada juntos e que afetava diretamente a criana.
O relacionamento dos dois estava ao mesmo tempo sendo fortalecido e complicado pelo fato de ela ter sido casada com o irmo de Rory. Seria mais ntimo do que qualquer outro vnculo empregatcio que anteriormente tivera, era claro, mas ainda havia um ponto a ser melhor considerado.
Rory lhe dissera que no era casado ento, sem dvida, suas namoradas entravam e saam de sua casa a todo momento.
Ele provavelmente iria se fechar em seu quarto com as moas e ali ficariam durante horas sem fim, dedicados a orgias sexuais famosas entre homens e mulheres de Londres!
Ou talvez ele fosse homem de ficar apenas com uma mulher, buscando aquela de seus sonhos, a despeito de todos seus protestos. Provavelmente queria uma super-modelo estonteante e inteligente para estar a seu lado em ocasies oficiais. Uma bonequinha com crebro, talvez.
E se Angel quisesse paz de esprito, teria de aprender a ignorar os namoros de Rory.
O beb resmungou, e ela sorriu.
 Ol, Lorcan  sussurrou suavemente e sentiu, mais do que viu, Rory observando-a.
No olhou para ele. No ousou. Detestaria comear a ter fantasias romnticas. Coisas assim aconteciam com muita facilidade quando se vivia a rotina estril que ela estivera experimentando havia tanto tempo.
Ainda estava muito vulnervel em relao a homens. Aquele fora o legado de Chad para ela. E obviamente vulnervel a um homem to msculo quanto aquele, em especial quando sentava-se a seu lado e possua um corpo digno dos comerciais da moda.
Em nada se parecia com um tpico advogado da cidade. Sra. Fitzpatrick dissera aquilo quando Angel comentara que iria embora com ele.
 Est muito silenciosa.
A voz de Rory interrompeu suas divagaes.
 Eu estava apenas pensando em algo que a sra. Fitzpatrick falou quando lhe disse que ia partir.
 Voc a deixou em situao difcil?
 Oh, no. Absolutamente no. Janeiro  um ms muito tranqilo. Ela me mantinha no trabalho durante o inverno mais a ttulo de favor, na verdade, e eu a recompensava na atribulada estao das frias.
 Ela desaprovou que voc viesse comigo?  aventurou-se astutamente.
Angel sorriu.
 No, sr. Advogado.
 No?
 Acho que ela percebeu que era uma boa oportunidade para mim.
 Mas?
 Eu no falei "mas".
  o que chamo de palavra invisvel. Uma espcie de palavra que paira no ar e no precisa ser dita. Ora vamos, Angel. Conte-me sobre as reservas da sra. Fitzpatrick. Parecia ter algumas.
Ele tinha razo. Lembrou-se do aviso que ouvira, quando Angel travou uma conversa a ss com a senhora, perguntando-lhe se haveria problemas decorrentes de sua partida to breve.
 Importar-me?  perguntara a sra. Fitzpatrick.   claro que no me importo!  um prazer enxergar novamente vida em seu rosto. No devia desperdiar sua juventude em um lugar como este. E a criana no teria algum melhor para cuidar dela alm de voc. J a vi com crianas; tem um dom especial para lidar com elas.  Fizera uma pausa ento e seu olhar se tornara muito srio.  Mas vou lhe dizer uma coisa, Angel Mandelson. Vivi bem mais do que voc e j vi muitos homens. Sei que este  o tipo de homem capaz de despedaar seu corao se voc no for cuidadosa!
 Oh, serei muito cuidadosa  defendera-se Angel de imediato.  De qualquer maneira, no h nada nem mesmo remoto entre ns!  estritamente profissional.
 Nada  estritamente profissional entre um homem e uma mulher  alertara-a a sra. Fitzpatrick com firmeza.  Especialmente se ambos so solteiros. Presumo que ele seja solteiro.
 Assim Rory me disse.
Angel retribura o sorriso, ainda sentindo-se desnorteada. No fundo sempre ansiara por uma oportunidade de escapar da vida que levava. E sua chance viera na forma de Rory Mandelson e de seu sobrinho rfo.
 No vai me contar o que ela falou?  indagou Rory finalmente.
 No, no vou  respondeu com doura.  Deixarei que faa suas prprias dedues. E se fosse voc, decidiria para onde vamos, porque ainda temos o caminho bloqueado por uma vaca.
Rory a fitou. Ento ao beb. Depois olhou para a vaca, que os contemplava solenemente. O absurdo de toda situao o fez gargalhar.
 Qual  a graa?
Ele balanou levemente a cabea, exausto.
 Nenhuma. Ou toda. Oh, Angel, no  esquisito como a vida pode mudar em um segundo?
Ergueu a cabea, e ela viu as marcas de riso ao redor da boca e dos olhos cor de safira. Havia olheiras devido  falta de sono.
 Ligue o carro  instruiu-o.
 O qu?
 No estamos indo para Rosslare esta noite. H um hotel a algumas milhas atrs. Poderemos passar a noite ali. E no estamos com pressa; voc acabou de admitir! Vamos, Rory, concorde que isto faz mais sentido para ns do que ficarmos a noite toda aqui at o amanhecer.
 Bem, eu gostaria de ir adiante  falou.  Temos um longo caminho a percorrer. Preferiria parar perto de Rosslare, pelo menos desta maneira poderia descansar mais pela manh.
 Bem, eu acho que voc est bravo.
 Oh, acha mesmo?  perguntou suavemente.
A julgar pelas chispas emitidas pelos olhos escuros e azuis, Angel percebia que ele no estava acostumado a receber ordens, pelo menos no de uma mulher. Mas ela no se importava.
Entrara em um casamento com os olhos fechados e, quando tudo acabou, jurara que doravante seria sincera consigo mesma.
No tinha inteno de tornar-se uma mulher prepotente que sempre alegava saber tudo, mas no seria dominada por um homem simplesmente por ele ser homem!
Rory mal conseguia pensar direito. Estava exausto em decorrncia da inacreditvel sucesso de eventos, combinada com falta de sono.
 Voc tem um beb sob sua responsabilidade  ela lhe falou.  No deve dirigir at o porto. Seria cansativo demais.
 Est bem.
Ele desligou o motor e balanou o chaveiro de metal diante de Angel.
 Voc dirige!  desafiou-a.
Angel o encarou, consciente de que ele a havia encurralado.
 Eu no!
 No? O que quer dizer com "no"? 
Novamente a linguagem de um advogado.
 Est bem ento, eu no posso  enfatizou.
 Ah  observou triunfante.  Ento tenho voc completamente sob meu poder, no  mesmo sra. Mandelson?
Seus olhares se encontraram por um longo momento, e o silncio foi se tornando pesado. Angel sentiu um n na garganta ao tomar conscincia da reao de seu corpo quela proximidade, da curiosidade pairando nos olhos de Rory, fazendo-o parecer um predador.
Nunca antes estivera to consciente do bater do prprio corao. Parecia prestes a explodir no peito.
 Eu deveria ensin-la? 
Fitou-o confusa, imaginando sobre o que falava.
 Ensinar-me o qu?
 Ora, a dirigir,  claro. A que achou que eu me referia?
 Voc vai ou no me levar para o hotel?  perguntou-lhe com aspereza.
 E se eu no levar?
 Ento ter de encontrar outra pessoa para cuida de Lorcan  esclareceu, mas ao mesmo tempo em que dizia o nome do beb percebia no ter inteno de ir adiante com a ameaa.
Sabia que Rory tambm no pretendia permitir que ela fizesse aquilo. Mesmo que significasse entrar em um acordo e fazer o que ela sugeria...
 Parece que voc me encurralou  falou dramaticamente ao recolocar a chave na ignio e ligar o motor.
 Parece que sim  concordou, tentando no parecer to satisfeita consigo mesma.  Agora vire o carro  falou com firmeza.  Mas no faa muito barulho. Afinal de contas, no queremos amedrontar a vaca.
Rory ainda ria ao obedecer s instrues e retroceder estrada afora, rumo ao hotel.


CAPTULO VI


 Black Bollier  muito famoso por aqui  falou Angel.  Teria sido uma pena voc ir embora sem conhec-lo.
 Que nome extraordinrio  murmurou Rory.
 Extraordinrio mesmo  o dono. Um ingls  acrescentou, como se aquilo explicasse tudo.  Veja. Aqui estamos.
O Hotel Black Bollier era uma construo corroda pelo tempo e detentora de um passado colorido. Sua aparncia nica atraa um grande nmero de turistas, especialmente americanos.
Os pais de Angel haviam visitado o lugar, o que no era to surpreendente j que moravam a apenas cinqenta milhas de distncia.
A fama do local, entretanto, se espalhara para muito alm de County Wicklow. Mesmo em um pas como a Irlanda, o hotel era renomado pela excentricidade de seu proprietrio.
O lugar era considerado pitoresco, o que tornava praticamente impossvel conseguir um quarto durante a alta temporada, a menos que a reserva houvesse sido feita com seis meses de antecedncia.
O que atraa legies de hspedes eram as camas mais confortveis da Irlanda e um cardpio com sugestes saborosas, providenciado por um chef de cozinha tecnicamente perfeito.
Durante os meses de inverno, porm, com exceo dos que freqentavam o restaurante, o hotel era ocupado apenas por pessoas da regio, desejosas em ocupar o tempo e aguardando que algo emocionante acontecesse.
A viso da garota do Hotel Fitzpatrick com um ingls estranho e um desconhecido beb na cidade era obviamente toda a emoo de que necessitavam.
Angel no sabia que espcie de reao esperar quando os trs entraram, mas certamente no fora o distinto silncio de desaprovao que os saudou.
Seria preciso ter um corao de granito para no se sentir intimidada pelos olhares repletos de julgamento.
Sabia que Rory tinha razo. No devia se importar com o que as pessoas pensavam a seu respeito, mas quem em perfeito juzo no se sentiria afetado por tal recepo? Pensou se deveria ficar no meio do salo de entrada e anunciar que ela no estava fugindo com um total estranho.
 Por aqui  sussurrou para Rory, que carregava o bero porttil com Lorcan.
 Por que est sussurrando?
 Por que acha?
 Porque no est exatamente emocionada com a recepo calorosa?  indagou secamente.
 Exatamente. Vamos fazer o registro!
Angel caminhou, seus passos rompendo o silncio, at o local da recepo. Rory a seguiu.
Alan Bollier, o proprietrio, estava ao balco, ocupado em ler um catlogo de vinhos franceses.
Aquele era o excntrico ingls que tinha a reputao de ser uma lenda. Quando jovem apaixonara-se perdidamente pela Irlanda, trabalhando cada hora sob o sol para acumular uma boa soma em dinheiro.
Chegou a economizar o bastante para comprar o hotel local e, em uma espantosa demonstrao de vaidade, tirou o nome dependurado ali havia sculos e colocou o prprio.
Por alguma estranha razo aquilo o tornou querido pelos habitantes da regio, que passaram a sustent-lo em suas tentativas de fazer dinheiro. Havia finais de semana especiais como o do "Hotel Mal-Assombrado", particularmente popular entre os turistas.
Era conhecido como um homem de opinio forte. No momento fitava Angel com um olhar nada acolhedor.
 Posso ajud-los?  indagou secamente.
 Voc deve ser Alan Bollier  disse Angel, sorrindo.
 Sou  foi a resposta glida.
 Bem,  bom estar aqui, sr. Bollier. Ouvi dizer que seu hotel  maravilhoso  falou, usando seu charme irlands, embora o rosto do homem parecesse encar-los como a chegada da chuva em um piquenique.
 E agora que o vejo, posso dizer que cada palavra que me foi relatada era verdadeira!
 Pode mesmo?
Angel decidiu abandonar seu comportamento amigvel. Era bvio de que o sr, Bollier era muito mais temperamental do que fora descrito.
 Eu... Ns gostaramos de um quarto, por favor falou Angel, sorrindo nervosamente ao perceber que o senhor poderia estar tirando concluses equivocadas.
 Quero dizer, gostaramos de dois quartos, por favor.
 Dois quartos com portas vizinhas, suponho?  indagou o homem.
 Algum problema quanto a isto?  inquiriu Rory agradavelmente, apesar de irado.
Alan Bollier encontrou seu olhar.
 E por que haveria? A vida  sua. Deve fazer o que achar melhor. No  de minha conta.
 Isto mesmo  rebateu Rory, no to agradavelmente assim.
Angel observou seu acompanhante de soslaio e depois comeou a preencher o formulrio que Alan Bollier lhe estendera. A ltima coisa de que precisavam era de um confronto com o dono do hotel.
No estava com vontade nem energia para procurar uma acomodao alternativa, e no encontrariam nada to bom sem percorrerem um longo trajeto.
 A que horas servem o jantar?  perguntou polidamente.
 Sete horas em ponto!  grunhiu, pegando dois pares de chave e colocando-os displicentemente sobre o balco.  Os ltimos pedidos so recebidos s nove e meia. E o chef no espera por ningum; tem casa e compromissos. Por aqui, sigam-me.
Eles o seguiram andar acima. A irritao de Rory evaporou assim que viu onde ia dormir.
Os quartos eram maravilhosos, de uma maneira que apenas hospedarias irlandesas antiquadas podiam ser. Eram dotados de camas grandes e altas, sem contar com as lareiras j acesas que aqueciam cada quarto. Contemplou a cama com ansiedade.
 Lenis apropriados e cobertores  comentou em tom de aprovao, assim que Alan Bollier partiu.
Olhou ao redor, contemplando o menor dos dois quartos com indisfarada satisfao.
 Ficarei com este, Angel.
Suprimiu um bocejo e testou o colcho com a mo.
 Um colcho de penas, tambm! Puxa! No durmo em uma cama assim h anos!
 Mas aqui no h toda modernidade a que est habituado  declarou Angel, olhando para os lenis de linho e almofadas de seda.
 Quando voc fala, refere-se  Inglaterra, presumo.
 A que outro lugar?
 Posso ver que teremos uma completa renovao na vida domstica quando voc chegar  falou Rory enquanto colocava o carregador com Lorcan no meio da cama.
 Por Deus, Alan Bollier  um tormento, no ?   indagou Angel, franzindo a testa.
 Suponho que no trate todo mundo daquele jeito  comentou Rory.  Excentricidade  uma coisa, falta de educao  outra. Se sempre fosse grosseiro assim, no teria mais clientes.
 Oh, eu no teria tanta certeza. Ele  extremamente popular por aqui. As pessoas vm de milhas para se hospedar neste lugar. No h locais em Londres ou Nova York onde se paga para ter o privilgio de ser insultado?
 Pelo menos no desse jeito  respondeu sorrindo.  Suponho que ele a conhea. Isto explicaria sua atitude?
 Ele provavelmente j ouviu falar de mim. Todos sabem da vida de todos por aqui.
 Ento  por isto que so to protetores em relao a voc, e isso explica a recepo nada amigvel quando chegamos. Qual o problema, no gosta daqui?
 J no tenho certeza  respondeu vagarosamente.  A comunidade com um relacionamento to prximo foi o que me atraiu de volta. Era tudo de que eu precisava depois de Londres. Mas quando se  solteira, pode ser sufocante. No acho que eu v sentir muitas saudade. So muito intrometidos.
Ele sorriu.
 Acho que provavelmente pensam que voc j foi abandonada por um ingls e agora valsa por aqui com outro que poder lhe fazer a mesma coisa!
Angel abriu a boca, mas no sabia como responder quilo. Ento houve um protesto rancoroso no bero porttil. Rory sorriu ante o evidente embarao dela.
 Mas que sorte a sua!  murmurou.  Salva pelo beb! Acha que devo reservar minhas observaes para mais tarde?
Angel mordeu o lbio, incerta sobre como responder a uma provocao to sensual. Era bom v-lo sorrindo, mas certamente o comportamento no era apropriado para um homem que acabara de perder o nico irmo.
Pegou uma mamadeira.
 Voc gostaria de descer para aquec-la ou prefere que eu v?
 Pode dar para mim. No quero que seja novamente exposta  ira do dono do hotel.  Pegou a mamadeira com um sorriso irnico.  E tire essa expresso terrvel de seu rosto, por favor! No sou um sedutor de corao de pedra, sabe disto! Tudo ser devidamente observado e respeitado, Angel. Voc tem seu quarto, e eu o meu.
Era estranho como ela se sentiu aliviada e desapontada ao mesmo tempo.
 E onde Lorcan ir dormir?
Houve uma pausa, perodo em que Rory ficou olhando para o sobrinho.
 Seria melhor que ele ficasse comigo esta noite  declarou ele.
Angel hesitou. Ficou imaginando se Rory encontrara conforto em seu pequeno sobrinho nas horas escuras antes do alvorecer, quando a noite parecia interminvel.
 Ele chorou muito quando... Quando...
 Quando a me dele morreu?  Rory procurou engolir o gosto amargo das lgrimas.  No muito. Os... Os homens da ambulncia disseram que ele apenas parecia assustado e muito, muito silencioso, mas isto se devia ao impacto da coliso, claro...
As palavras de Rory cessaram quando Lorcan comeou a protestar, e instintivamente ambos se fitaram e sorriram. Angel piscou ao sentir a imensa fora daquele sorriso, capaz de preencher todo seu corao.
Lorcan protestava mais alto, por isso ela se inclinou e o pegou com cuidado do bero e estudou sua feio. Era minsculo como um brinquedo, o rostinho vermelho devido ao esforo para chorar.
 Shh  murmurou baixinho e, como isso no causou qualquer efeito, fitou Rory.
Estava apavorada com a perspectiva de Lorcan novamente buscar seu seio.
 E melhor eu ir aquecer esta mamadeira  falou ele, o som do choro do menino deixando-o desconfortvel.
Angel sentiu-se tocada ao ver um homem forte e grandalho como Rory ser dominado por um minsculo beb. Seus olhos o seguiram at que deixasse o quarto, na tranqilidade de saber que no era observada.
Teve conscincia de que contemplara por tempo demais a cala jeans preta moldada s coxas fortes e ao corpo bem-feito. Mesmo assim, no conseguira se conter.
No era mulher de analisar o fsico masculino ou julgar um homem por sua potncia sexual. Desde Chad, era como se aquela parte dela estivesse morta.
Ento seria Rory quem a fazia agir de maneira atpica ou tudo era decorrente da situao em que se encontrava?
Estava muito consciente da mudana de comportamento que ocorrera em seu ser e de sua reao em relao a Rory. Do fato de que alguma coisa inesperada e inexplicvel parecia ter acontecido.
Teria aquele homem despertado sensaes que haviam desaparecido? Ou a morte trgica de seu marido a teria afetado, alterando seu estado mental, embora seu casamento estivesse acabado havia tanto tempo?
Diziam que as pessoas despertavam para a vida quando algum morria, como se a morte as fizesse lembrar de que precisavam viver.
Ser que a amedrontadora ameaa da morte fazia com que se quisesse usufruir do melhor da vida antes que fosse tarde demais?
Era irnico que o homem a provocar tais sentimentos inusitados fosse aquele que, pela natureza de seu trabalho e do relacionamento com Angel, tivesse um autocontrole to intenso.
Baixou o olhar para Lorcan, que j gritava. Resolveu andar pelo quarto, apertando-o com fora de encontro ao corpo enquanto cantava. Mas o menino estava com muita fome e era jovem demais para ser tranqilizado por uma cano.
Queria comida imediatamente. Quando Rory retornou ao quarto trazendo a mamadeira aquecida, ela voou sobre o objeto como uma me superprotetora. Viu-o sorrir e sentar-se em uma poltrona prxima  janela, observando-a alimentar o beb.
O quarto foi envolto em um manto de paz. Ouvia-se apenas o som do beb e do fogo a crepitar. A criana parecia muito contente e de vez em quando Angel dava uma olhada para cima para contemplar o reflexo das chamas na pele de Rory.
No pde decifrar a expresso dos olhos escuros e ficou imaginando o que se passava em sua mente.
Homens como Rory sempre estavam com aparncia formidvel. No momento, a tranqilidade de suas feies o tornava mais acessvel, prximo. Um bom alvo para um beijo.
Sentindo-se culpada, tirou a mamadeira dos lbios de Lorcan e com gentileza o colocou em p e acarinhou suas costas. O beb arrotou e Angel sorriu, feliz.
 Oh, voc  um garotinho muito esperto!  murmurou, e Rory encontrou seu olhar em um momento de perfeita compreenso.
 Esquisito, no   comentou , como este som vindo de um beb pode nos dar tanta satisfao.
 Talvez seja estranho para um advogado  comentou sorrindo.  Mas j fui bab, e este  um dos bons momentos do dia de trabalho.
Observou-a cuidar da criana. Conforme sua admirao crescia, viu-se tambm notando que durante a maior parte de sua vida julgou as mulheres com base nos bens materiais que possuam ou conquistavam. Pela primeira vez viu-se descobrindo o devastador impacto de uma mulher totalmente  vontade com sua feminilidade ao ninar um beb. Percebeu que tal paz podia ser muito sensual.
Seus olhares se encontraram.
 Que horas so?
 Perto das seis  ele falou de modo despreocupado, apreciando aquela posio to confortvel.  Por qu?
Angel fez uma careta.
 Se o chef for como Alan Bollier, no gostaria de me atrasar para o jantar.
Ele se levantou com relutncia da poltrona prxima  lareira e ficou em p do seu lado. Angel sentiu-se imediatamente vulnervel no instante em que Rory estendeu os braos. Levou um minuto para perceber que queria o beb e no ela.
 O que acha de eu o banhar e deix-lo pronto para dormir enquanto voc se troca para o jantar?  sugeriu Rory ao pegar Lorcan.
Angel contemplou o vestido preto que colocara pela manh.
 Trocar-me?
 Bem, sim.
Ele no pde se conter. Passeou os olhos lentamente pelas linhas esguias do corpo de Angel.
 A menos que esteja planejando usar essas roupas durante o jantar.
 Seria hipocrisia de minha parte usar preto?
 Seria desnecessrio e no hipcrita  corrigiu-a.  E nada atraente, para ser honesto.
Angel queria lhe dizer que usaria o que bem entendesse e que aquilo no era da conta dele. No se importava se estava ou no atraente.
At ver-se dominada pelo intenso azul daqueles olhos e perceber que aquilo era uma mentira deslavada...



CAPTULO VII


Angel andou pelo corredor at o banheiro. Ligou o antigo sistema de encanamento do Black Bollier e conseguiu gua quente suficiente para um banho.
Desejou ter trazido pelo menos um pouco de espuma, para que pudesse relaxar apropriadamente na banheira. Era lamentvel que o hotel s oferecesse uma barra dura de sabonete sem perfume, ideal apenas para lavar o rosto e prevenir manchas.
Era insuficiente para a cena da "transformao da Cinderela" que imaginou experimentar no instante em que Rory a visse novamente.
Mesmo assim, lavou os cabelos. Enrolou-se em uma toalha, os cachos escuros de seus cabelos brilhando e lanando pingos em suas costas.
Voltou a seu quarto... bem a tempo de ver Rory saindo com uma toalha enrolada ao redor dos quadris. Ele suprimiu um gemido de protesto e se culpou por ter se esquecido de quanto tempo uma mulher pode demorar no banheiro.
Naquele momento parecia que fizera tudo de propsito para encontrar Angel seminua no corredor, o que no podia estar mais distante da verdade. A ltima coisa em que precisava pensar naquele momento era em sexo. Devia estar considerando a morte do irmo e no quanto gostaria de ter sua ex-esposa entre os lenis...
Tentou usar o humor para criar uma defesa.
 Ora, ora, uma sereia de verdade!  comentou. Angel estava muito perturbada com a viso do corpo seminu para fazer qualquer coisa alm de ficar ali, de queixo cado.
Rory indagou, de modo muito gentil:
 Angel? Est tudo bem?
 Tudo bem. Onde est o beb?  perguntou de maneira rude, descobrindo que a raiva era um mtodo muito eficiente para distra-la da extenso quase indecente daquelas pernas.
 Dormindo!
 Ento ia deix-lo sozinho?  acusou-o.  Desprotegido?
 Eu apenas estaria a alguns passos do quarto  ponderou.  E eu sabia que voc estaria na porta ao lado.
Imaginou que ela j estaria de volta... e vestida.
 E ento decidiu escapulir de seu quarto e tentar me assustar?
 Assust-la? Por que eu faria isto? Fiz?
Certamente sim, mas por razes que Angel no gostaria de admitir nem para si mesma, quanto menos para ele!
 No.  necessrio muito mais do que voc para me amedrontar, Rory Mandelson.
  mesmo?
Os olhos de Rory cintilavam devido ao riso contido, e ele ficou imaginando se o humor fora um mtodo eficiente para afastar seus pensamentos. Naquele momento aquela situao o estimulava e provocava.
Retrocedeu alguns passos e pegou o bero onde Lorcan dormia, estendendo-o para Angel. Olhou para a porta do banheiro. Ansiava por um longo e relaxante banho.
 Espero que voc tenha deixado um pouco de gua quente para mim.
 No sei se haver gua quente suficiente para um banho.
 Ento tomarei um banho frio?
Era exatamente daquilo que ele precisava.
Angel parecia colada ao cho, incapaz de tirar os olhos dele. Que torso maravilhoso, flagrou-se pensando. Nem um grama de gordura. E os braos...
 Angel?
A voz de Rory flutuou no espao, trazendo-a de volta  realidade.
Percebeu que lhe fazia uma pergunta. Rasteou a memria para tentar resgatar o que era. Os olhos dele se estreitaram." Como Angel conseguia fazer aquilo?" Raras vezes vira uma mulher conseguir parecer to pura, intocada, as bochechas to limpas quanto ptalas de uma rosa aps uma tempestade.
Condenando-se pela divagao nada apropriada, abriu a boca para dizer algo, ento pareceu pensar melhor.
 No importa.  A voz dele era surpreendentemente gentil.  V e vista-se agora, Angel, voc est tremendo.
 Est bem  concordou.  Eu o verei depois. Respirando pesadamente, ela se apressou para o quarto e bateu a porta atrs de si, apoiando-se contra a madeira at conseguir se controlar. Ou quase.
Olhou para Lorcan e percebeu que Rory no apenas o banhara como tambm lavara seus cabelos. Como conseguira fazer aquilo na pequena bacia? O menino descansava limpo e aquecido, usando um pijaminha de flanela azul.
 Voc est muito bonito garoto!  exclamou com entusiasmo.  Sabia disto?
O beb se mexeu, e o corao de Angel se enterneceu.
 Mas a questo , jovem Lorcan, o que eu vou vestir? Quem vive no interior da Irlanda rural, no necessita de muitas roupas. 
Angel usava jeans durante a maior parte do tempo ou uma saia preta com blusa branca quando estava trabalhando no hotel.
At mesmo no dia de seu casamento com Chad usara cala jeans velha. Fora um daqueles casamentos deliberadamente casuais com pretenso de desdenhar das tradies, mas que terminara deixando uma sensao de vazio exatamente por causa disso.
Voltou ao presente, fazendo uma careta diante das poucas opes de roupas para o jantar. Devia usar preto novamente? Mas Rory no estava de luto e certamente no tinha inteno de fazer isso. Roupas sombrias chamariam mais a curiosidade das pessoas.
Remexeu em seus pertences at que seus dedos tocaram em seu nico vestido bonito. Era de l de carneiro e tinha um tom de verde bem suave, belo e discreto.
Deixou os cabelos soltos sobre os ombros em uma tentativa de disfarar o modo como o tecido moldava seus seios. No gostaria que Rory achasse que ela tinha inteno de provoc-lo.
Mirou-se criticamente no espelho. Com um belo e brilhante broche de marcassita no decote, no passaria despercebida, mesmo para um advogado londrino.
Fazia muito tempo que Angel no se dedicava tanto a aprontar-se. As razes de tal esmero chegavam a perturb-la, mas no tirariam sua satisfao. Ou tirariam?
Deviam partilhar um delicioso jantar em um momento como aquele? Talvez devesse ter solicitado que o jantar fosse servido em seu quarto, mas Rory no teria concordado.
Olhou-se novamente no espelho. Pensou em usar maquilagem, ento decidiu pelo contrrio. Sua pele estava rosada e limpa devido  vida saudvel no campo. Permitiu-se apenas um leve batom nos lbios, o que os fez parecerem mais cheios e at um tanto provocadores...
Queria sentir-se bonita e segura, afinal, era seu primeiro encontro para jantar em mais de dezoito meses.
Ento a constatao do que fazia subitamente a tomou e suas pernas ameaaram falhar. Desabou na beirada da cama e ficou olhando, sem nada enxergar, para o fogo, e foi assim que Rory a encontrou quando bateu  porta cerca de vinte minutos mais tarde.
Entrou, os cabelos ainda midos, franzindo a testa ao observ-la com a expresso to triste. Imediatamente deu uma olhada para o bero.
 Lorcan est bem?
 Sim, est bem.
 Ento qual  o problema?
A suavidade de sua voz a desconcertou. Fitou-o, temendo que seu lbio inferior comeasse a tremer.
 Nada.
 Obviamente houve alguma coisa  contradisse-a, valendo-se da experincia de quem passava a vida lidando com a verdade.  Est assim por causa da perspectiva de jantar comigo?
Angel encontrou seu olhar de safira e sentiu todas suas defesas se abalarem. Nada ganharia sentindo-se mal e mantendo aquilo apenas para si. E era fundamentalmente uma pessoa honesta.
 Parece to tolo... 
Ele no reagiu.
 Deixe-me julgar sozinho.
  que... Bem, eu realmente estava apreciando me arrumar para jantar  disse-lhe, como se aquilo explicasse tudo.
Rory espantou-se e ento ficou muito contente. Sua experincia com mulheres que no tinham vergonha de parecerem vulnerveis era escassa. E Angel parecia muito vulnervel naquele momento.
 Mas que elogioso!  falou em tom de aprovao.  O que h de errado com isto?
 Tudo! Chad morreu h pouco tempo e aqui estou eu, preocupando-me com o que vestir.
 E?
 Isto simplesmente no parece correto... Eu estar animada para sair para jantar, quando Chad est...
 Sim, eu sei  interrompeu-a, o rosto se enrijecendo e ganhando uma tenso quase insuportvel.  Tive de ir identificar o corpo, lembra-se?
Angel sentiu um arrepio, a mente visualizando a cena com amedrontadora clareza.
 Sinto muito  ele acrescentou rapidamente, culpando-se por tamanha insensibilidade.  Mas a vida tem de continuar, Angel. Ficar sentada com expresso de pesar, rejeitando as alegrias que a vida tem a lhe oferecer no ir lhe trazer Chad de volta.
 Eu sei  respondeu tristemente.
 Isto no muda o modo como voc sente as coisas.
 Voc se sente triste com a situao o tempo todo?
 No o tempo todo. A sensao de pesar vai e vem. Algumas vezes me sufoca e, em outras, consigo me sentir realmente bem.
  como me sinto. 
Rory olhou para o bero.
 E quanto a Lorcan? Bebs so muito sensveis. No ser bom para ele se ficarmos entristecidos. Acabar percebendo o clima ruim.
 Tem razo.
 Chad a tratou de maneira imperdovel ao sair de sua vida sem lhe dar uma palavra de explicao  ponderou com gentileza.  No merece sua lealdade. Ou sua simpatia.
Angel moveu a cabea e fitou o fogo, os cabelos banhados pela luz avermelhada das chamas.
 Eu estava apenas triste, Rory. Muito triste. E um tanto culpada. Talvez, se tivesse sido uma esposa melhor, ele no houvesse partido e ento nada disto teria acontecido.
Era difcil dizer o que era mais suave: a voz de Rory ou seu olhar. Ele se moveu e ficou diante de Angel.
Subitamente estavam prximos, prximos demais, tanto quanto amantes, e a respirao dela ficou suspensa.
 Eu tambm me sinto culpado. 
Ela arregalou os olhos.
 Mas por que deveria sentir culpa? 
Rory deu de ombros.
 Porque eu deveria ter ido busc-los no aeroporto. Ele me pediu e eu disse que no podia.
 Vai ficar louco se permitir-se pensar assim  falou com suavidade.  No h sentido algum no que diz.
 Sei disto. Mas faz parte da natureza humana.  A expresso de Rory demonstrava a dor que sentia.  Eu tinha um caso naquele dia. Um caso muito importante, mas poderia ter dado um jeito de ir at o aeroporto...
 Ento por que no fez isto?  indagou, compreendendo sua necessidade de traduzir os sentimentos em palavras.
Suspeitava de que ele era um homem de poucas palavras.
 Porque eu ainda estava bravo com Chad  explicou.  Bravo com o modo com que ele lidava com as pessoas.
 Pessoas?
 Voc  admitiu com vagar.  Eu o condenava por trat-la to mal.
Angel sorriu, feliz em saber que Rory havia pensado nela.
 Bem, no precisa mais ficar bravo por minha causa. J superei.
 Oh,  mesmo?  perguntou descrente.   por isto que foi isolar-se na Irlanda quando vocs dois romperam?
 Para que outro lugar eu poderia ir? A Irlanda  meu lar.
 Voc estava a milhas de sua casa.
 Bem, uma famlia grande pode ser prejudicial quando voc est tentando se recuperar de algo...
 Levar uma vida de mulher de meia-idade  sua maneira de superar as coisas?
 Sobre o que est falando?  perguntou quase indignada.
 Estou falando sobre voc!  respondeu aborrecido, e Angel teve uma amostra de como ele devia se portar diante de uma Corte.  Carregando bandejas de quarto em quarto como uma...
 Quem lhe disse isto?
 Sra. Fitzpatrick. Enquanto voc fazia as malas, ela pintou uma gravura muito sombria de sua vida, se quer saber...
 Como ousou!
 Nada de passeios  continuou implacavelmente.  Nada de sadas. Nada!
Ela abriu a boca para demonstrar sua indignao, mas as palavras lhe faltaram. No havia nada a dizer. Rory falava a verdade. Sua vida estava vazia.
 Durante quanto tempo pretendia viver assim? 
Angel respirou profundamente.
 Eu no pensei muito sobre isto tudo  admitiu.  Estava ocupada cuidando de minhas feridas.
 Algo muito sensato de sua parte. Mas tais feridas j deveriam estar cicatrizadas. Voc fez seu luto por Chad quando ele ainda estava vivo. Ento no se sinta mal porque no tem inclinao nem energia para recriar tais sentimentos agora que ele est morto.
 Talvez eu esteja reabrindo tais feridas ao concordar em cuidar de seu filho  ponderou Angel.
  isto que voc teme?
Ela no respondeu de imediato. Apenas olhou adiante para o fogo a crepitar.
 No. No tenho temor de mais nada.  Encontrou o olhar de Rory.  Talvez seja apenas uma reao ao que aconteceu com Chad.
 A morte tem o hbito particular de colocar tudo em perspectiva  comentou de modo taciturno e, em seguida, fitou-a da cabea aos ps.  A propsito, voc est adorvel!
 Est dizendo isso apenas para me agradar?
 Oh, no. Eu nunca falo coisas que no desejo falar. 
"Precisaria se lembrar disso sempre", pensou Angel.
 E ento, est com fome?  perguntou ele.
 Faminta!
 Ento vamos comer!
Ele pegou o bero com facilidade de sobre a cama e todos saram do quarto.
A sala de jantar estava quase cheia. Angel achou o movimento excelente para uma incua noite de janeiro no meio de lugar nenhum.
O humor de Alan Bollier estava levemente melhor ao gui-los at uma mesa situada em um canto do salo.
 Reservei esta para vocs  disse-lhe com sua voz gutural.  Aqui  mais silencioso, e h espao para o beb. Ou devo coloc-lo no quarto dos fundos?
Angel e Rory trocaram olhares questionadores.
 Vamos mant-lo aqui!  declarou Rory.
O homem resmungou e lhes estendeu um cardpio.
 O salmo acabou  informou-lhes.  Mas h camares. E um peixe timo.
 A lista de vinhos, por favor  pediu Rory.
 Voc quer uma garrafa de vinho decente?  indagou o proprietrio.  Ou apenas um jarro?
Rory escondeu o sorriso.
 O melhor  respondeu gravemente.
 Tinto ou branco?
 Angel?
 Branco, por favor.
Alan Bollier resmungou mais uma vez.
 Deixem comigo  disse ele, marchando por entre as mesas.
  um homem muito presunoso  foi o comentrio seco de Rory ao observ-lo afastar-se.
 E dono de uma personalidade e tanto. E todos na Irlanda adoram personalidades!  exclamou Angel ao observar o cardpio.  Vamos escolher a entrada?
Ele comeou a relaxar.
 Vamos sim.
O vinho foi trazido  mesa e aberto.
 Deixarei que voc sirva  Alan Bollier falou para Rory, aps o casal ter pedido sopa e camares.
Rory serviu um pouco de vinho a ambos.
Angel acomodou-se na cadeira e o estudou enquanto tomava um gole. Parecia cansado, embora menos exausto que anteriormente. Mesmo assim era inegavelmente o homem mais atraente do restaurante.
Mas o motivo de captar os olhares mais tinha a ver com sua presena do que com boa aparncia. A fora e autoridade que dele emanavam, revelavam a inteligncia por detrs do rosto harmonioso e corpo viril.
Uma combinao um tanto perigosa! Ele parecia ter a habilidade natural de fazer uma mulher sentir-se segura e protegida.
Suspirou. Deveria ser bom ficar presa em seus braos para um longo beijo. Por que um homem como Rory Mandelson permanecia solteiro?
 Parece to pensativa  observou Rory no momento em que tigelas com batatas e sopa eram colocadas na mesa dos dois.
Angel sentiu-se culpada por estar considerando os motivos de ele ainda estar solteiro.
 Apenas estava pensando no quo cansado deve estar. O que no era, exatamente, uma mentira.
 E mesmo?  foi a resposta irnica, e Angel percebeu que ele no acreditara em uma palavra.
Felizmente a tnue luz proporcionada pelas velas lanava sombras incapazes de permitir a Rory observar seu rubor.
A comida tornou-se uma bem-vinda distrao. Angel ps a colher na sopa, mas ento olhou para ele, e a refeio foi subitamente esquecida.
O modo como Rory a fitava era irresistvel.
 Estava pensando em Chad?  ele perguntou com gentileza.
Angel fez sinal negativo com a cabea. Chad parecia uma lembrana muito distante.
 Estava apenas especulando por que voc nunca se casou  admitiu.  Mas este  um assunto muito pessoal para ser comentado.
Ele a fitou com expresso de diverso.
 Voc certamente  muito objetiva  comentou, lanando-lhe seu mais belo olhar.
 As pessoas gastam muito tempo dizendo coisas que nada significam  argumentou.
  sim. Bem, para comear, tenho um trabalho que me ocupa ao extremo  disse Rory.
 Assim como muitos outros homens  ponderou Angel imediatamente.  O mundo estaria com a populao muito reduzida se este fosse um bom motivo para impedir casamentos!
Rory sorriu, observando que ela mal tocara no vinho. Levou a taa aos lbios enquanto considerava a pergunta.
 Acho que a razo principal  eu jamais ter encontrado uma mulher com a qual suportasse jantar junto, noite aps noite.
Angel arregalou os olhos.
 Voc quer dizer que nunca encontrou uma mulher atraente o bastante para querer casar-se com ela?
 Oh, no! No se trata de atrao. Atrao e sexo so fceis... Uma conversa agradvel  a prova mais importante.
Angel ficou pensando sobre aquilo enquanto comia. Era um insulto a todas as mulheres com as quais ele sara. Implicava que considerava-as boas o bastante para partilharem sua cama, mas as mantinha firmemente distantes de outras reas de sua vida. No gostaria de estar naquela situao.
Observou Rory servir-se de sua refeio com muito apetite e ficou imaginando havia quanto tempo no saboreava uma boa comida. Viu seus ombros gradualmente relaxarem conforme o calor da sopa fazia efeito e ofereceu-lhe outro pedao de po, mas ele negou.
 Aguardarei pelo prato principal, obrigado.
 Coma!  instruiu-o, empurrando o pedao de po com manteiga em sua direo.
Rory agradeceu com um sorriso.
 Sim, madame!
O po desapareceu em segundos, e ele acomodou-se melhor na cadeira, suspirando feliz.
 Assim est melhor.
 Parece realmente bem melhor do que quando chegou  comentou.
 Bem, isto no  de se surpreender. Dirigi uma longa distncia com um beb recm-nascido e no final das piores semanas de minha vida. Alm disto, enfrentei negociao muito delicada.
 Negociao?
 Eu vim para a Irlanda na inteno de lev-la comigo para cuidar do beb, mas no fazia idia se aceitaria ou no.
 Oh, mas  to persuasivo, sr. Mandelson  ironizou. Ele sorriu.
 E, para ser perfeitamente honesto, no posso me recordar da ltima vez em que eu relaxei como agora!
 Bem, talvez deva fazer isto com mais freqncia! 
Deixou o olhar pousar de modo crtico no rosto msculo.
 Talvez deva  repetiu suavemente.
A morte trgica de seu irmo subitamente pareceu um sonho distante naquele momento, e Rory gostaria de prolongar a ausncia da lembrana. Ergueu a taa.
 Ento, a que devemos brindar, Angel?
Ela no pde pensar em nem uma coisa sequer para dizer, ficando cada vez mais enrubescida por causa do penetrante olhar de Rory.
Naquele instante, o beb estremeceu a seus ps.
 A Lorcan?  ela balbuciou.
Rory assentiu, seu rosto demonstrando surpresa e prazer.
O que esperara que ela dissesse?
 A Lorcan  concordou.
Mais tarde, Angel pde lembrar-se apenas de fragmentos do que fora dito durante o restante da refeio. Sentia como se houvesse sido irreal. Era irreal, mas em grande parte porque ambos estudadamente evitaram falar sobre os momentos de tragdia que viveram.
Era como se estivessem conscientes que uma refeio de que tanto necessitavam no poderia ser consumida a menos que a dor fosse colocada de lado.
Angel sabia que ele lhe contara alguma coisa sobre a carreira, mas apenas porque lhe perguntara. E uma vez ou duas conseguira faz-lo rir com descries da vida no Hotel Fitzpatrick e algumas das ultrajantes exigncias que turistas adoravam fazer.
Devido ao cansao de Rory, ela imaginou que gostaria de retirar-se mais cedo naquela noite. Mas para sua surpresa estavam entre as ltimas pessoas a partir, e havia uma estranha calma no jeito de Alan Bollier carregar caf e chocolate com menta para a mesa deles.
 Sr. Bollier est mais tranqilo, parece  observou Angel assim que o homem se afastou.
Rory colocou um torro de acar na xcara.
  porque estamos sentados e respeitavelmente jantando em vez de fechados no andar de cima, fazendo jus a toda espcie de mexericos.
Angel retirou a embalagem dourada de um chocolate e o levou  boca.
Terminaram o caf e foram para o andar de cima. Ela pegou o bero da mo de Rory.
 Ele poder dormir comigo esta noite  falou com firmeza.
 Pensei que tinha dito que eu ficaria com ele  queixou-se Rory, mas Angel podia ver sua dificuldade em esconder um bocejo.
 Ficar comigo  repetiu, as olheiras de Rory chamando sua ateno.   uma oportunidade ideal para me adaptar.
E para fazer uma completa avaliao da aparncia do menino sem o olhar astuto de seu tio.
Durante seus anos como bab aprendera, para seu espanto, quanto bebs podiam se manipulados. Trabalhara para mulheres ricas e vaidosas que apenas tocavam em seus filhos quando tinham certeza de que estavam sendo observadas. Mulheres que apenas encenavam a maternidade e no pareciam se importar com as crianas absolutamente.
 Por favor, Rory, deixe-me lev-lo.
Ele abriu a boca como para fazer uma objeo, mas Angel o impediu de falar.
 Voc conseguir cuidar de si mesmo? No est bem para tomar conta de um beb.
Na penumbra do corredor do hotel, com os cabelos caindo em uma cascata de seda ao redor do rosto, Angel parecia ter dezoito anos, embora a lgica lhe dissesse que no seria possvel. Tinha vinte quando se casara com seu irmo.
 Este  seu jeito eufemstico de me acusar de estar bbado, talvez?
 Bbado?
Percebeu que ele quase ria. Angel crescera com homens que tomavam usque no caf da manh.
 Seria necessrio bem mais do que trs quartos de uma garrafa de vinho para fazer um homem de sua compleio fsica ficar bbado, Rory Mandelson!
 Bem, eu me sinto zonzo. Estou realmente zonzo  murmurou e ento fez algo totalmente inesperado. Estendeu a mo e a passou pelos cabelos dela, em seguida, inclinando-se para a frente, beijou-lhe os lbios. Foi providencial que Angel estivesse segurando o beb ou poderia se arrepender mais tarde de sua resposta ao afago.
Talvez estivesse perturbada tambm. Caso contrrio, por que tivera vontade de enlaar o pescoo largo e premir seu corpo de encontro ao de Rory?
Que espcie de garota inocente do interior se permitiria tal avano a partir de um nico e breve beijo? Se ele no tivesse bebido vinho, ento Angel poderia ter feito exatamente aquilo. Mas bebera. No muito, era verdade, mas talvez o bastante para faz-lo arrepender-se de sua impetuosidade na manh seguinte. Alm do mais, Rory a beijara como homem e no amigo. Poderia no querer parar aps um beijo e ento o que Angel faria?
Ser que ele usaria sua vasta experincia com mulheres para faz-la expor suas fraquezas e ficar completamente vulnervel e  merc de suas habilidades? Afastou-se. O silncio no permitia que as coisas fossem adiante entre os dois. Balanou a cabea, seus cabelos se agitando ao redor do plido rosto.
 Acho melhor irmos para a cama agora  falou, quase sem ar.
Ele assentiu. Angel escolhera um jeito desafortunado de se expressar, mas Rory resistiu  vontade de provoc-la. Embora, pensando bem, talvez um pouco de brincadeira aliviasse o desejo que sentia por ela.
 Acho melhor irmos.
Angel no esperava uma capitulao to fcil. Embora no tivesse inteno de deix-lo avanar alm de um beijo, sentia-se ultrajada por Rory nem mesmo ter tentado prosseguir.
 Boa noite  disse ela.
 Boa noite, Angel  sussurrou.  Obrigado  acrescentou com suavidade.
Ela arregalou os olhos. Por que estava lhe agradecendo? Por t-lo deixado lhe dar um beijo? Ou por no ter permitido que prosseguisse?
 Pelo qu?
 Por tudo.
O modo como falou tocou seu corao.
 Boa noite, Rory  respondeu e com rapidez levou o beb para dentro de seu quarto antes que sua expresso revelasse seus pensamentos.
Colocou o bero de Lorcan sobre a cama e comeou a pentear os cabelos. Que espcie de mulher seria amada por um homem como Rory Mandelson?, ficou pensando enquanto se aprontava para dormir.
Uma vez tendo acomodado Lorcan para passar a noite, lavou o rosto, vestiu pijama e foi para a cama na esperana de adormecer. Mas logo descobriu por que mames novas passavam o tempo todo to plidas.
Ela simplesmente no se preparara para o fato de que Lorcan acordaria a cada duas horas. J cuidara de bebs jovens antes, era verdade, mas nunca tivera experincia com um de apenas poucas semanas de vida.
Um beb, acima de tudo, sem me e pai. E, embora Rory tivesse lhe dito que um beb da idade de Lorcan era jovem demais para ter formado ligaes fortes, Angel simplesmente no acreditava naquilo. No importava o que os livros diziam; podia apostar que o menino sentia falta da me.
Mas pelo menos a longa noite lhe daria oportunidade de conhec-lo melhor.
Angel dormiu nos intervalos permitidos pelo beb. Normalmente precisava de oito boas horas de sono por noite, mas, surpreendentemente, percebeu que, quando Lorcan acordava, ela no ficava sonolenta ou irritada.
Alimentou-o e trocou-o, levou-o para a cama grande consigo e acariciou sua pele aveludada, observando-o melhor.
Examinou cada dedo perfeito curvado com fora ao redor do seu e com vagar comeou a compreender que Lorcan seria muito mais do que apenas uma tarefa para ela. Havia um lao a lig-la quele pequeno e indefeso beb. Um lao muito complexo, mas uma ligao importante mesmo assim, e Rory fora excepcionalmente esperto em buscar sua ajuda. Teria percebido que Angel faria qualquer coisa para proteger aquela criana de uma bab annima contratada por uma agncia? Era realmente irnico que Rory obtivesse dela toda a devoo de uma esposa, mas sem o envolvimento fsico que tornava tudo mais interessante. a O beb mexeu as perninhas, balanou as mos e mais uma vez agarrou-lhe o indicador. Ela observou seus olhos azuis, o corao lamentando o fato de aquele inocente ter tido seu mundo dizimado por uma crueldade do destino.
Angel podia tornar seu universo melhor.
  No se preocupe, jovem Lorcan. Nem um pouco  sussurrou ao pequeno por entre lgrimas.  Estou aqui para cuidar de voc.


CAPTULO VIII


Angel foi despertada por um choro de beb e pela luz matinal em seu rosto. Ficou pensando por que deixara as cortinas abertas na noite anterior. Mexeu-se para se livrar da nvoa do sono e, desorientada, tentou lembrar-se de onde exatamente estava. E ento recordou-se.
Sentou-se muito aprumada na cama e olhou ao redor. O choro de Lorcan aumentava de volume, e tudo comeava a se encaixar.
Estava no Hotel Black Bollier, cuidando de um recm-nascido. Rory estava ali tambm.
Fez uma careta quando as lembranas chocantes trouxeram  tona a dor. Chad estava morto, sua amante tambm. O beb deles era rfo.
Com um gemido baixinho, Angel balanou a cabea e uma satisfao inesperada se infiltrou em seus pensamentos repletos de dor. Algo indesejvel e impensado, mas bom mesmo assim.
Atnita, olhou para o outro lado da cama, imaginando por que esperara ver Rory deitado a seu lado, adormecido, os cabelos em desalinho sobre o travesseiro.
O motivo de tal pensamento tambm aflorou. Haviam partilhado uma refeio e no final acontecera... Engoliu em seco. No fora nada demais e mesmo assim...
Teria simplesmente imaginado o prazer dele quando seus lbios se tocaram brevemente? E sua resposta? O beijo breve fora suficiente para povoar sua noite de sonhos perturbadores e erticos. Sonhos onde havia um homem de corpo forte e moreno e cabelos escuros.
J eram oito horas da manh, por isso apressou-se em vestir jeans e uma camisa amarela. Em seguida pegou o choroso Lorcan.
Queria ninar o pequeno, mas estava to ensopado e a fome era tanta que Angel se contentou em lhe dar um breve abrao antes de troc-lo e coloc-lo de volta no bero, imaginando se Rory j estaria acordado.
Pegou o bero, e o movimento pareceu tranqilizar o pequeno Lorcan. Foi para fora e parou diante da porta do quarto de Rory.
Bateu levemente. Aguardou durante alguns segundos, mas no houve resposta. Certamente ele no poderia j ter ido para o andar de baixo tomar caf sem dar uma olhada no sobrinho.
Esperou mais alguns segundos e com cuidado virou a maaneta. Rory ainda estava ali, profundamente adormecido. Espraiava-se sobre a enorme cama antiga em livre abandono.
E estava completamente nu.
Foi como se o sonho da noite anterior houvesse se materializado. Angel permaneceu em p, atnita ante a viso, zonza demais para at mesmo perguntar-se por que sua normal timidez a havia abandonado.
A pele era suave, de um tom dourado. As costas eram largas, terminando na cintura estreita, e movimentavam-se suavemente a cada respirar profundo.
A respirao de Angel pareceu ficar dolorosamente presa na garganta quando deixou seu olhar migrar sem qualquer inibio pelo restante do corpo msculo, seus olhos verdes bem arregalados.
Nunca imaginou que a forma masculina pudesse ter tantos contrastes. A musculatura firme e bem definida era coberta por uma pele de seda e as pernas por plos negros. Era um corpo que um artista adoraria usar como celebrao da vida.
As pernas morenas se destacavam contra os lenis claros e pareciam ser to slidas quanto uma pedra. Obrigou-se a recobrar os sentidos. Estava prestes a escapulir silenciosamente do quarto quando ele se mexeu, e Angel ficou imvel, temendo que o mais leve som o acordasse. Receava de que abrisse os olhos e a flagrasse ali, em franca observao de seu corpo nu. Ele se virou preguiosamente, ficando de costas, e daquela vez Angel teve certeza de que seu espanto, seu respirar afogueado, denotara sua presena. Rory estava excitado... Muito excitado.
Angel fechou os olhos, mas a imagem permanecia penosamente no lugar, provocando-a e zombando de seu embarao.
Mas sua reao no a devia ter surpreendido. Porque sua experincia com homens comeara e terminara com o falecido marido, algo que sempre fora motivo de provocaes. Uns poucos meses de casamento, e a virgindade que Chad tanto valorizara tornou-se fonte de gozao.
Angel abriu os olhos e fitou novamente a orgulhosa magnificncia das formas adormecidas de Rory, os bvios contrastes entre dois irmos tornando-se evidentes.
O corpo de Chad no se assemelhava quele. Nem um pouco. Chad era plido e sempre tivera obsesso por cobrir-se, mesmo no quarto.
Levou a mo  boca, virou-se e deixou o quarto to silenciosamente quanto entrara. Pegou o bero e foi at o andar de baixo para esquentar a mamadeira de Lorcan. Suas mos estavam trmulas.
A cozinha encontrava-se atribulada. Duas mulheres colocavam comida em pratos para atender aos pedidos de caf da manh. Bacon, ovos e outras iguarias. Elas se apressavam com as bandejas, passando rapidamente por Angel.
Uma garota grandalhona de cerca de dezenove anos, com cabelos encaracolados e sardas, estava ao fogo, mexendo um doce com uma colher de madeira. Sorriu timidamente para Angel, que aproveitou a oportunidade para apresentar-se.
 Sou Angel Mandelson, uma das hspedes daqui falou.  Preciso aquecer a mamadeira do beb. A garota pegou a mamadeira de sua mo. 
  D-me isto  instruiu-a.  Farei isso para voc. Por que no se senta perto da porta e aguarda at que esteja pronta? Ento poder aliment-lo. Apontou para uma cadeira a um canto do enorme ambiente, bem longe de onde as refeies estavam sendo preparadas.
Angel sentiu-se feliz em aceitar a oferta da garota especialmente porque Lorcan choramingava tristemente o olhar de curiosidade. Enrubescida e embaraada por no poder aliment-lo. Pegou-o do bero e passou a nin-lo, mas aquilo novamente foi intil, pois o menino virava a cabea na direo de seu seio. A moa ao fogo lhe lanou um olhar. Angel sentiu-se compelida a explicar:
 Ele no  meu. No tenho leite para lhe dar.
A garota assentiu, claramente desejando obter mais informaes. Mas sabia que seu patro no gostaria que comeasse a se intrometer na vida dos hspedes do hotel, especialmente em um assunto to delicado assim. Sorriu gentilmente para Angel e lhe estendeu a mamadeira aquecida.
Lorcan estava faminto, e o cheiro do leite o fez debater-se. Angel no poderia lhe negar o alimento por mais tempo. Colocou o bico da mamadeira em seus  lbios, e o menino comeou a sugar enquanto a garota de sardas os observava com curiosidade, de soslaio.
Aps a refeio, ela o colocou na vertical de encontro ao corpo e mais tarde no bero. Ajeitou o cobertor de l, maravilhando-se com a rapidez com que se adequava  rotina de ter um beb. Preocupou-se ento em se alimentar.
A sala de jantar estava quase vazia quando acomodou-se a uma mesa  janela. Alan Bollier apareceu e a cumprimentou com uma espcie de careta que Angel presumiu ser um sorriso. Era mesmo estranho o homem ter clientes por ali.
 Bom dia! Espero no estar atrasada demais para o caf da manh  falou de modo simptico.
 E quanto a seu amigo?  indagou o homem imediatamente, olhando para a escadaria como a esperar que Rory se materializasse.  No vai querer comer?
Angel deu de ombros.
 No fao idia. Ainda est dormindo. Eu o deixei na cama, no o quis acordar.
Assim que falou, desejou ter se expressado com um pouco mais de cuidado.
Por que fizera sua explicao soar como se ela e Rory houvessem apreciado uma longa e energtica noite no andar de cima? Como se o tivesse deixado exausto na cama?
  mesmo? E voc gostaria de um caf da manh completo?
 Sim, por favor  Angel respondeu, esperando ser capaz de fazer jus  refeio.
Caso contrrio o sr. Bollier ficaria ainda mais aborrecido.
O homem saiu para providenciar o pedido e retornou com um bule de ch em uma bandeja.
Mas a ateno de Angel estava focada em Lorcan, que comeara a queixar-se. Pegou-o no colo e verificou sua fralda. Estava limpa e seca. E acabara de aliment-lo. Restava apenas uma necessidade bsica: carinho.
Comeou a nin-lo e a cantarolar uma msica baixinho. Sabia como era importante falar com bebs, especialmente com aquele.
Estremeceu ao tentar imaginar os sons predominantes que ele devia ter ouvido em sua jovem vida. Gritos e derrapar de pneus, sirenes e soluos. Apertou-o com fora contra o peito, desejando que o pequeno se esquecesse daquilo. Prometeu doravante cerc-lo com sons agradveis. Lorcan fez um barulhinho de satisfao, e Angel sorriu, deliciada.
 Bem,  um comeo sussurrou contra os cabelinhos de seda.
Continuou a nin-lo at que o menino adormeceu, e ela o recolocou no bero.
O caf da manh completo consistia em torradas, bacon, ovos, salsicha, cogumelos, tomates e po frito. Teria parecido delicioso para algum que estivera trabalhando nas estradas desde o alvorecer. Mas Angel descobriu que queria apenas salsicha com um pedao de torrada.
Alan Bollier franziu a testa alarmantemente quando veio pegar seu prato e notou que mal tocara na refeio.
 No gostou do caf da manh?  quis saber. Angel olhou diretamente em seus olhos. Realmente precisava parar de se sentir intimidada por aquele homem!
 No havia nada de errado com o caf da manh  disse-lhe.  Apenas no estava com muito apetite.
O homem a fitou com curiosidade.
- Vocs vo ficar apenas por uma noite?
 Sim.
No gostando de ser interrogada, Angel rapidamente pegou a mamadeira vazia de Lorcan.
 Ser que eu poderia usar sua cozinha para esterilizar os equipamentos do beb antes de partirmos? Precisamos colocar um pouco de leite nas mamadeiras tambm.
 Pode. Pea a ajuda de algum.
Olhou com frieza para a criana.
 O que aconteceu com a me dele? 
Angel olhou para cima, surpresa.
 Como sabe que no sou sua me?
 Sei quem voc . Conheo a sra. Fitzpatrick e se voc estivesse grvida durante todo este tempo, eu teria ouvido a respeito.
Angel suspirou. Sabia que aquela pergunta lhe seria feita vezes e vezes; vira-a no rosto da menina na cozinha. E por mais que preferisse ficar calada, no poderia manter-se alheia ou evitar uma resposta simplesmente porque era dolorosa.
Pelo bem de Lorcan, a lembrana de sua me no poderia simplesmente ser afastada para debaixo do tapete como poeira indesejada. Angel engoliu em seco, as palavras amargas em sua boca.
 Ela morreu em um acidente de carro. Assim como o pai do menino.
Foi a primeira vez que Angel viu Alan Bollier mostrar sinais de emoo alm de desaprovao. Choque e descrena nublaram seu semblante por um momento.
 Pobre garotinho  murmurou.
Teria imaginado aquilo ou os olhos do homem brilhavam de modo suspeito ao fitar o beb? Ser que pessoas egocntricas como Bollier choravam diante de crianas rfs?
 Use a cozinha  vontade  falou-lhe com voz rouca.  Sirva-se do que precisar.
 Obrigada  disse Angel, pegando o beb e mergulhando o rosto em seus cabelinhos.
Suspirou aliviada quando Alan Bollier se afastou e ela pde se recompor. Supunha ser melhor acordar Rory. Precisavam pegar a balsa.
A porta de seu quarto ainda estava fechada, mas daquela vez Angel bateu bem forte e ouviu um gemido abafado vindo de dentro do quarto.
 Rory? 
Mais um som indistinto.
 No posso ouvi-lo!  gritou Angel.
 Como est Lorcan?
 Est bem. 
Ouviu um movimento atrs da porta.
 Por que no entra?
 Voc est decente?
 Depende  foi a resposta sonolenta  de sua definio de decncia.
 Vestido. Plenamente.
 Espere um pouco.
Angel ouviu mais movimentos e ento passos at a porta ser plenamente aberta e l estava Rory, bocejando, recm-acordado.
Angel evitou fitar-lhe diretamente, registrando apenas o suter que acabara de vestir. A julgar pelos cabelos em desarranjo e a cala jeans com zper baixado e desabotoada, ele realmente se vestira s pressas.
Bem, no estava mais nu.
Ele no a fitava tambm. Sua ateno fora totalmente capturada pela serenidade do sobrinho adormecido.
Descalo, ajoelhou-se ao lado do bero e deu uma olhada dentro.
 Ele est feliz.
 J o alimentei. E troquei. Ninei tambm.
 Obrigado  disse simplesmente, embora Angel pudesse ver apreciao nos olhos azuis. E fadiga.
Angel sorriu.
 Eu estava apenas fazendo meu trabalho.
 Voc estava fazendo muito mais do que isto  discordou, a voz profunda e rouca.  Que horas so?
 Passa das nove.
 Voc devia ter me acordado  murmurou, bocejando novamente.
 Acabei de fazer isto.
 Mais cedo.
Bem, essa fora sua inteno anteriormente, mas o corpo nu a fizera postergar o intento. Houve uma pausa enquanto Angel lutava para no deixar que seu embarao viesse  mostra. Um momento depois permitiu que seu olhar pousasse no rosto msculo.
A noite de sono parecia ter intensificado o cansao em vez de o abrandar. Ficou imaginando se ficara to perturbado quanto ela durante a noite.
Observou as olheiras e as linhas de riso ao redor da boca, transformadas, pela tenso, em sulcos profundos. A exausto de Rory era to extrema que podia ser quase palpvel.
 Quanto tempo faz desde que dormiu uma noite inteira?
Ele franziu a testa e ento deu de ombros. Como se no importasse.
 Algumas semanas... Desde o acidente, de fato.
 Bem, no pode continuar assim. Parece um morto  disse Angel com firmeza e quase mordeu a lngua.
Ele lhe deu um sorriso triste ante a cruel ironia do comentrio.
 No faa com que eu me parea com um santo, Angel  argumentou, o leve tremor em sua voz revelando seu estado de esprito.  Catorze noites de sono instvel no so nada. Muitas mulheres fazem isto o tempo todo, s vezes durante meses a fio e so elas quem do  luz! Eu no!
 No, voc no deu  luz, mas teve uma experincia de vida muito traumtica.
Ele fez um som de desgosto.
 Oh, por favor! Poupe-me! No me venha com essa conversa de psicloga.
 Pode chamar como quiser, Rory  respondeu suavemente, dando-lhe toda pacincia que aprendera a oferecer a seu querido av, que perdera completamente a razo no final de sua longa vida.  Mas eu no precisaria ser psiquiatra ou psicloga para saber que a morte de seu irmo o afetou muito mais do que imagina.
Com um suspiro de irritao, Rory pegou o bero de Lorcan, girou nos calcanhares e retornou ao quarto para onde, aps muita hesitao, Angel o seguiu.
 Voc no teve tempo de processar a perda apropriadamente  continuou de modo inexorvel, desprezando sua postura rgida.  Porque no quis aborrecer Lorcan.
Com um movimento exageradamente cuidadoso, ele colocou o bercinho perto da janela, ento retornou para junto de Angel, o rosto cheio de emoo.
 Ento qual  seu remdio mgico, dra. Mandelson? 
Sua voz estava distorcida pelo sarcasmo, mas Angel tinha experincia de vida o bastante e suficiente confiana em seus instintos para saber quando um homem estava com os nervos  flor da pele.
 Voc precisa liberar isto  falou com gentileza. 
O homem contido que era Rory Mandelson sentiu-se como se suas emoes estivessem disparando para diversas direes.
Balanou a cabea em negativa. O que estava acontecendo com ele? Onde estava o advogado controlado que com freqncia fizera jurados balanarem a cabea avidamente em assentimento, concordando com todo argumento razovel que ele colocara em seu caminho?
Onde estava aquele homem naquele momento?
Balanou a cabea uma vez mais, envolto no desespero que o acometia desde o trgico acidente com o irmo. E ela era responsvel por todas aquelas emoes estarem to presentes naquele momento.
Com seus cabelos negros, belos olhos verdes e pele de porcelana, parecendo branca demais para ser natural.
 Fale tudo, Rory  aconselhou-o.  Apenas fale tudo.
Ele pegou o rosto de Angel entre as mos trmulas, to trmulas como as de um bbado no incio da manh, mergulhando naquele olhar.
Deixou que as emoes vencessem a razo. E beijou-a.
Por um momento Angel apenas permitiu que ele fizesse aquilo, sua mente trabalhando em disparada na tentativa de saber como agir em seguida.
Qual seria o melhor canal para que todo o pesar fosse liberado? No poderia renegar um homem que chorava em silncio do modo como Rory fazia.
De alguma maneira seu corao sempre soubera que aquilo aconteceria. No poderia ser postergado por mais tempo. Queria que Rory chorasse, expurgasse sua dor. Mas no imaginou que seria assim.
Ou imaginou? Ser que realmente desejava ver as lgrimas de Rory? Seria aquilo que Angel quisera que ele fizesse desde a noite anterior, talvez desde o momento em que ele entrara no Hotel Pitzpatrick?
As mos de Rory se moveram do rosto de Angel para os cabelos, mergulhando em sua sedosa maciez e encontrando calor e conforto ali. Ela sentiu a lngua afoita passear por sua boca, os lbios to quentes e firmes sobre os seus que pareciam prestes a consumila.
Subitamente Angel percebeu que agia corretamente. Ficou na ponta dos ps e enlaou o pescoo de Rory. Em seguida moldou-se a seu corpo, gemendo ao sentir um misto de gratido e desejo.
Ele no disse uma palavra, continuou beijando-a e um tempo depois fazia mais do que apenas isso. Bem mais.
Angel estremeceu de prazer, mergulhando as unhas freneticamente nos ombros largos. Era inacreditvel pensar que aquilo estava acontecendo... com ela. E que permitia que acontecesse, exultasse at.
Nunca se sentira to  merc do prprio desejo. No emitiu protestos quando Rory escorregou a mo por debaixo de sua camisa e a acariciou.
Seu sangue ferveu nas veias, movido por uma alegria violenta, e ela o viu arfar ao sentir a maciez de seus seios, os bicos se enrijecendo involuntariamente ao serem tocados por uma mo imensa.
A outra mo escorregava por suas pernas, fazendo-a contorcer-se e o desejar mais. Queria-o tanto. Percebeu que ele descia o zper de sua cala jeans e fazia a pea descer por seus quadris. Em seguida retirava-lhe a calcinha.
Os joelhos de Angel ameaaram falhar quando ele a tocou intimamente.
Sensaes nada familiares comearam a tom-la durante o carinho.
Rory acomodou-se de costas na cama e a puxou para seu lado, tirando a prpria cala com impacincia, bem como o suter que vestira havia apenas alguns momentos...
 A porta!  ela murmurou, zonza.
 Mmm?
Ele a fitou sem v-la, perdido em um mar de emoes.
Angel teve a presena de esprito de verificar com um olhar se havia fechado a porta atrs deles ou no. Seu alvio foi imenso.
A porta estava fechada.


CAPTULO IX


Angel estava nua nos braos de Rory, trmula, a moldar-se fortemente de encontro a seu corpo. As pernas fortes se entrelaavam intimamente s suas, o peito coberto de plos negros em suave contraste com seus seios.
Desejo, a pura sensao a tomava enquanto peles nuas se roavam, fazendo-a dar gemidos de deleite e descrdito. Oh! Era to bom. Melhor do que qualquer coisa. E tudo o que ele fazia era passar os dedos sensualmente por seu corpo nu, explorando-a com tranqilidade, deixando-a indefesa, incapaz de fazer qualquer coisa a no ser gemer de prazer.
E os sons suaves que emanava pareciam estimul-lo mais. Sem dizer qualquer palavra ele a desvendava, e, da mesma maneira, Angel revelava o prazer que lhe estava sendo proporcionado. Deixava vir  tona uma Angel Mandelson renascida nos braos de Rory. Ele se comportava como um homem possudo e o mesmo encantamento deveria t-la tomado. Por que outro motivo estaria to lnguida em seus braos, o corpo exposto s mos e olhos vidos, os braos erguidos para detrs da cabea em ansiosa antecipao? Quase no podia reconhec-lo naquela demonstrao de desejo to profunda e enlouquecedora.
Os lindos olhos azuis, os cabelos negros, tudo a fazia ter vontade de prosseguir. Naquele momento ele acariciava seus seios, sugando-os com sofreguido.
Ele estava perdido, totalmente perdido, tomado pela mais selvagem e intensa sensao fsica que j experimentara. Mesmo quando era adolescente, em sua primeira investida no mundo do sexo, no se lembrava de ter se sentido assim.
Ondas de desejo o inundavam, deixando-o indefeso diante de tamanha fora.
Percebeu que havia rompido todas as regras de seu prprio livro. E a nmero um era que mal a conhecia. No usara tcnicas de conquista nem premeditara aquilo. No se valera da linguagem e dos delicados instrumentos da seduo.
Rory gemeu. Gostaria de poder parar o que fazia naquele exato momento, mas sentia-se incapaz. Algo mais forte dominava sua razo e logo o movimento dos quadris de Angel debaixo de seu corpo o arrastou novamente para um turbilho de novas sensaes.
Estava to excitado que sentia-se prestes a explodir de dor e prazer. Algo primitivo, completamente alm de sua experincia o controlava.
Apoiou-se nos cotovelos e a observou. Durante instantes seu olhar mergulhou na inocncia dos olhos verdes, e ele se sentiu inseguro. Mas ficou imvel por no mais do que um segundo, at sua ateno ser capturada pelos seios apontando em sua direo, enrijecidos em doces tons de rosa e creme.
  Angel  balbuciou.
Ela mergulhou em seus olhos tambm. Nada poderia lhe negar. Sentiu suas coxas se entreabrindo para Rory e ergueu os quadris para acomod-lo, como se fosse ela a experiente e aquele homem o inocente.
Angel experimentou a sensao mais avassaladora que j vivera. Tudo se fundira em uma nvoa de prazer. Pela primeira vez em sua vida compreendeu o sentido de duas pessoas tornarem-se uma.
Os dois pareciam indistinguveis quando ele a amou mais uma vez, at que lgrimas de alegria molharam o rosto de Angel.
Cada milsimo de segundo era como uma eternidade para Rory; nunca quisera satisfazer-se com tanta rapidez assim. Tentava tudo que conhecia, sua mente procurava capturar as tcnicas para se conter, mas tudo que conseguia sentir era o cheiro dela.
Tentava imaginar banhos frios, mas percebia apenas o calor daquele corpo de mulher a acolh-lo.
E ento j era tarde demais. Tarde demais para fazer qualquer coisa alm de pressionar seus lbios de encontro aos de Angel enquanto seu corpo experimentava o mais explosivo clmax de sua vida.
Angel quase desmaiou de prazer ao sentir a lngua de Rory em sua boca entreaberta, o movimento coordenado ao de seu corpo.
Sentiu-o estremecer, as batidas do corao ecoando junto a seus seios e o abraou firmemente, sentindo-se segura e forte. Plena em sua fora feminina ao ter aquele homem grande to indefeso em seus braos.
Durante algum tempo, Rory permaneceu esttico, tudo suspenso no tempo e espao, antes que a irrealidade produzida pelo orgasmo se afastasse e o deixasse com uma avassaladora sensao de tristeza.
Rolou para o lado e a fitou, como se buscando confirmar o que haviam feito. Errado. O que ele tinha feito. E com quem!
Ser que seu irmo j no a havia molestado o bastante? Apoiou-se na lateral do corpo, sabendo que teria de encar-la, imaginando por que estava deitada ali, com aquele sorriso suave quando...
Angel timidamente abriu os olhos e viu-se observada pelos olhos azuis e determinados. Nenhuma palavra fora trocada; apenas aquela espcie de gemido quando ele dissera seu nome.
Sentia-se to prxima daquele homem, mais perto do que jamais imaginara ficar de algum. A palavra comunho havia ganho sentido em seus pensamentos.
 Isto foi...  comeou a falar Angel.
Ele se inclinou, a expresso subitamente alerta ao aguardar.
 O qu?
 Maravilhoso  falou, suspirando sonhadora. Ouviu um som suave enquanto ele soltava todo o ar retido nos pulmes e caa de volta sobre o travesseiro.
 Se pretende contar mentiras deslavadas assim no futuro, Angel, ento voc realmente deve repensar sua vida.
Genuinamente confusa, ela arregalou os olhos.
 Sobre o que est falando?
 Falo sobre o que aconteceu  disse com raiva, mas com raiva de si mesmo e no dela.  No sobre o que voc gostaria que tivesse acontecido.
Angel ficou perplexa diante daquela atitude hostil. Por que parecia estar to bravo?
 Ns fizemos amor...
 Voc no chegou ao clmax  falou deliberadamente, imaginando se haveria uma expresso diferente para orgasmo naquela parte do mundo.  Chegou?
Mas a confuso que pairava nos olhos verdes e as implicaes do significado fizeram o corao de Rory se contorcer em horror. Subitamente desprezou-se ainda mais. Ela no sabia. Ela no sabia!
A morte de seu irmo ainda era recente em sua mente para que at mesmo pudesse acreditar que pensava aquilo de Chad. Mas no conseguia deixar de consider-lo um idiota, estpido e egosta!
E ento Rory se conteve, imaginando o que lhe dava o direito de julgar. Seria melhor que Chad? Teria apenas a usado para dissipar a frustrao e raiva pela morte do irmo?
Atordoado e assustado, abraou-a e percebeu que ela tremia. At mesmo seus dentes batiam! Apertou o abrao, momentaneamente paralisado pelo desgosto de sentir o rosto mido de encontro a seu peito nu.
Rory puxou as cobertas sobre ambos. Angel tentou acomodar a cabea em seu ombro novamente, mas daquela vez ele no permitiu.
Ela podia agir como se nada houvesse acontecido, mas a verdade era outra. Algo acontecera, e havia repercusses a serem encaradas.
 Angel, eu sinto muito  comeou, mas, para seu espanto, ela o fitou parecendo uma gata selvagem.
 No ouse me pedir desculpas, Rory Mandelson!  quase gritou, irada, os lbios ainda vermelhos marcados pelos beijos.
 Mas eu no tive inteno de que aquilo acontecesse  protestou.  No daquele jeito.
Exasperada, Angel bateu de encontro ao peito largo, embora, a julgar pela expresso no rosto de Rory, seu soco no tivesse causado qualquer efeito.
 Eu tambm no fiquei exatamente planejando tudo durante a manh!  rebateu.  Mas aconteceu! E no momento em que voc me pede desculpas como se eu fosse uma virgem pura, isto me coloca em um papel de vtima. E no sou uma vtima, Rory! No mais!
 No  concordou vagarosamente.   claro que no.
Gostaria de beijar a linha harmoniosa de seu pescoo. Brincar ali durante horas e lhe dar o que ela nunca tivera antes.
Mas era perceptivo o bastante para reconhecer que sua urgncia podia ser motivada em parte por seu orgulho masculino. No era hora nem o local de mostrar a Angel Mandelson o que ela poderia sentir com ele...
 Suponho que voc no esteja tomando plula?
 No, no estou.
Tentou conter a recriminao que no tinha direito de sentir. Mesmo assim a vira verificar se a porta estava fechada, ouvira seu mudo protesto. At Angel devia ter percebido que a mente dele estava tomada pelo desejo, ento por que no se importara em lhe perguntar sobre contracepo?
Angel pensava na mesma coisa, particularmente na expresso "precaver-se", como Chad costumara colocar. O ex-marido sempre fora to paranico sobre ela ficar grvida que jamais enfrentara um risco como o que ela e Rory haviam acabado de viver.
 Eu no esperava que fosse acontecer...
 J disse isto.
 Ento naturalmente no estava preparada!  ela continuou como se no tivesse ouvido o comentrio dele.
 Bem, o que voc normalmente usa?
A implicao do que disse a magoou, embora soubesse que no tinha direito de sentir-se ferida. Por que Rory no chegaria  concluso de que ela tinha uma vida sexual ativa, tendo em vista o que acabara de acontecer?
 Eu no tenho usado nada desde Chad.
Rory franziu a testa, a mente tentando processar aquilo em termos de meses. Nossa, anos, at...
 Mas passaram-se mais de dezoito meses!  declarou.
 Mais de dois anos, na verdade  informou silenciosamente, sem saber por que fizera aquilo.
Rory franziu a testa.
 Mas vocs se casaram em setembro e, em junho do ano seguinte, ele sumiu...
 Ento a que concluso chega, sr. Advogado?
 Que...
Fez uma careta de descrena e a fitou.
 Que Chad e eu apenas tivemos relacionamento sexual entre setembro e pouco antes do Natal do mesmo ano  admitiu.
Aquela revelao confirmava a suspeita de Rory de que ela era virgem antes de ter se casado com Chad.
 Ele deve ter principiado seu relacionamento com Jo-Anne no Natal  expressou em voz alta, surpreso.
 Na mosca!  Angel exclamou, rindo ironicamente.  Espero que voc aplique um pouco mais de lgica diante dos tribunais do que agora.
Ele resistiu  tentao de dizer que nos tribunais no costumava ficar nu ao lado de uma linda mulher que acabara de lhe dar a mais sensacional experincia sexual de sua vida.
Dedicou mais ateno ao pensamento de um banho frio.
 Quero lhe fazer algumas perguntas.
 Est agindo como um advogado  disse com certa simpatia.
 Talvez porque eu seja um advogado  comentou, virando a cabea levemente para fit-la. Perdeu-se, por alguns momentos, na viso dos lindos seios.  No acha melhor nos vestirmos?  perguntou ele, sem saber o que dizer.
 Est bem.
Angel deu de ombros, tentando agir como se aquilo no importasse.
Algo no estava correto, e ela no sabia o que era. Rory parecia realmente desapontado de alguma maneira, mas um temor profundamente arraigado a impediu de perguntar o motivo. "Seria culpa porque ele acabara de levar a esposa do irmo para a cama?"
Angel forou-se a no se comportar de maneira tmida. Afinal, os dois haviam ficado da maneira mais ntima que duas pessoas podiam ficar, e o ato amoroso a perturbara de um modo como nunca acontecera antes.
Talvez fosse fcil satisfaz-la. Jogou as pernas para a lateral da cama e ficou de p. Notou a indisfarvel tenso a enrijecer a musculatura de Rory diante da viso de seu corpo nu.
Em silncio vestiu as roupas e passou os dedos pelos cabelos pretos na tentativa de ajeit-los. Rory vestia a cala jeans de costas para ela. 
Atordoado pela viso de Angel nua, comeou a rezar para que o zper no o machucasse. Ou pior. Podia antever as manchetes: "Advogado de Londres castrado em hotel irlands".
Pegou o suter do cho. Quando sentiu-se pronto para encar-la, viu que ela estava ajoelhada ao lado do bero de Lorcan.
 Ele est acordado?
Angel, tambm, estivera rezando para que o beb comeasse a chorar. A necessidade de cuidar de uma criana poderia postergar as perguntas terrveis que Rory estava prestes a lhe fazer.
Mas o pequenino dormia profundamente, conforme fizera durante a intempestiva unio na cama. O que no lhes deixava opo.
Virou-se para enfrent-lo, maravilhada em ver como parecia imperturbvel. Como se no houvesse acabado de...
Rory a observou enrubescer.
 H chances de voc ficar grvida?  ouviu-se perguntar.
Atnita e humilhada, Angel o encarou.
 Bem,  claro que h chances de eu engravidar, seu tolo!  declarou.  Sempre h chances de isto acontecer quando um homem e uma mulher fazem sexo sem proteo! Talvez ensinem biologia de um modo diferente na Inglaterra!
Rory procurou acalmar-se. As coisas no melhorariam se ambos comeassem a perder a pacincia. Particularmente tendo em vista a espantosa inocncia dela.
 Em que estgio do ciclo voc est?  perguntou com cuidado.
Angel piscou diversas vezes para conter as lgrimas. Uma pergunta adulta de um homem sobre seu ciclo menstrual realmente estava fora de sua experincia.
 Mas que espcie de pergunta  esta?
Ele no fazia a menor idia. Nunca fora to ntimo assim de uma mulher. Oh, fizera amor diversas vezes, mas nunca assim. Simplesmente no podia imaginar-se tendo tal demonstrao de selvagem paixo com qualquer das mulheres com quem sara.
Porque todas haviam tentado ser perfeitas. Sexo fora planejado em lenis perfeitamente limpos e feito aps a estratgica retirada das caras peas de lingerie francesa. Era como se todas lessem o mesmo livro e passassem a vida tentando seguir as regras. Ele nunca fizera uma pergunta to pessoal a uma mulher antes.
Estendeu a mo e tentou tocar a de Angel, mas ela se afastou.
 Apenas d-me uma idia de seu ciclo normal, Angel  pediu com delicadeza.  Est no meio, prximo do final ou...?
 Ora!  exclamou Angel.   assim que voc lida com toda mulher que vai para a cama com voc?
No iria deix-la fugir do assunto assim.
 Na verdade  informou-lhe com frieza, ignorando as implicaes das prximas palavras , nem posso me lembrar de ter tido sexo sem proteo antes, se quer saber.
Angel arregalou os olhos, insegura se devia se sentir elogiada ou insultada.
 Ento?  ele insistiu.
 Estou no dia dez, j que quer saber  Angel falou entredentes.
Rory tentou afastar a sensao de pnico, procurando demonstrar tranqilidade.
 Dia dez, no ?  Engoliu em seco.  Bem, ...
  um pssimo dia  complementou Angel.
 Significar uma longa espera at termos certeza.
 E no ser muito divertido!  exclamou ela. Rory contemplou o jeito como levantava o queixo em teimosia e uma sensao de responsabilidade o tomou.
 Se voc estiver... grvida...
Falou a palavra com dificuldade, sorrindo um pouco.
 Grvida de um filho meu, ento eu vou, claro, me casar com voc, Angel. Isto , se voc me quiser.
Ela o fitou especulativamente. Aquilo fora dito com o ar de algum que jamais sonharia que sua ofensiva oferta de casamento pudesse ser declinada.
Inclinou-se para a frente, seu rosto bem prximo do de Rory.
 No, no vou querer voc! Nem gostaria de t-lo se fosse o ltimo homem sobre a face da Terra!
 Angel!
 No me chame de Angel! Eu j entrei em um casamento porque era isto que esperavam de mim, porque me fizeram acreditar que era certo! No se podia dormir com um homem a menos que houvesse um anel de ouro no dedo. Voc sabe muito bem o que aconteceu.
Lorcan comeou a resmungar.
 Fale baixo!  sussurrou Rory em tom de urgncia.  Vai acordar o beb!
 Voc no teve essa preocupao enquanto gemia em meus braos!  rebateu com ardor.
 Angel, por favor acalme-se...
 Eu no quero me acalmar!
 Ento discutiremos isso em uma outra hora...
 Tambm no quero discutir isso em outra hora. Quero discutir agora!
No se importava se estava  beira da histeria ou com o que os hspedes dos quartos vizinhos estariam pensando. Passara a vida toda tentando se adequar s expectativas das outras pessoas e subitamente viu-se perguntando por qu!
 Est bem  concordou ele.
Subitamente sentiu-se muito calmo, a possibilidade da gravidez no mais se tornando a calamidade que primeiramente imaginara. A morte era uma calamidade, no a vida.
 Vamos discutir.
 Se eu estiver grvida, ento terei o beb, claro...
 Fico muito satisfeito em ouvir isto...  interrompeu-a.
 E voc poder v-lo. Ou v-la.
 Obrigado.
 E contribuir para manter a criana,  claro...
  claro.
Ela o encarou com desconfiana. Estaria rindo dela? Certamente no poderia rir em um momento como aquele. Respirou profundamente.
 Porque no trabalharei fora se tiver um beb.
 Certo. E por qu?
 Porque no quero que outra pessoa o crie! Estou errada?  declarou, as lembranas de seus dias de bab vindo  tona, quando conhecera mes que no amavam seus prprios filhos.
 No  ele falou vagarosamente.  Posso compreender isto.
 Pode?
Rory registrou incredulidade na sua voz.
 Claro que posso! Voc quer que seu filho cresa com os valores que voc considera importantes, no os de outra pessoa.
Era impressionante como ele tinha capacidade de colocar os pensamentos dela em palavras com tamanha preciso.
  por isto  falou com orgulho  que no me casarei com voc!
Rory nem sabia como se sentia, tendo o peito rasgado pela exasperao e tambm acalentado por um desejo avassalador por aquela mulher que o amara to passionalmente.
Se fosse honesto consigo mesmo, admitiria que a recusa de Angel a sua proposta fora a ltima resposta do mundo que esperara receber de qualquer mulher.
E percebeu que fora muito preconceituoso ao imaginar que, porque no tinha uma carreira poderosa, Angel agarraria a chance de se casar com ele.
Algumas mulheres, percebeu em um lance sbito, podiam ser fortes, boas e verdadeiras no importando o que faziam na vida. Suas vidas poderiam ser um sucesso de diferentes maneiras, independente de suas carreiras profissionais.
Encontrava-se despreparado para enfrentar as provveis conseqncias daquela recusa. Talvez tivesse de encontrar uma alternativa para cuidar do sobrinho. Angel era imprevisvel, mas pelo menos o fizera sentir-se vivo. E ele desesperadamente precisava voltar a viver.
 Isto significa que voc no mais deseja ir para Londres comigo e cuidar de Lorcan?
Angel o encarou como se ele houvesse perdido a razo.
 Quem falou isto?
 Bem, eu presumi que em vista do que aconteceu entre ns...
Angel deixou os cabelos carem e cobrirem seu rosto quando se abaixou para olhar Lorcan. Tomou-o nos braos de modo protetor e aguardou at recobrar um pouco da compostura antes de encontrar o olhar de Rory.
 Bem, voc presumiu errado.
Rory viu-se sorrindo. Teria beijado Angel, no fosse o temor de sua resposta furiosa.
  mesmo?
Angel sentiu-se enregelar ante a expresso daqueles olhos. O que acontecera naquela manh certamente no se repetiria. Seria considerado fruto das emoes aps uma tragdia. E com um bocado de sorte no estaria grvida.
 Completamente errado. E no h motivos para discutirmos mais sobre isto. No no momento.
Rory discordava, mas podia ver que havia uma barreira entre os dois. Perguntou-se se haveria outra oportunidade de perder-se nos tons de rosa e branco daquele corpo, mas pensar no trazia respostas. Apenas o levava de volta ao local de incio. Estava acalorado e frustrado. Angel balanava Lorcan suavemente.
 E se pretende pegar aquela balsa, ento temos de preparar um pouco de leite e passar em algumas lojas rapidamente.
Rory teve a estranha sensao de que aquela mulher no era fcil de se lidar.
 Lojas?  inquiriu baixinho.
 Lojas  concordou com impacincia.  Estamos sem fraldas descartveis!
CAPTULO X


Angel saiu para comprar fraldas, apesar da suave chuva matinal.
Queria evitar encontrar Alan Bollier, que provavelmente colocara o ouvido na parede e escutara sua discusso acalorada com Rory.
Ser que Alan Bollier daria um sermo em Rory por causa do comportamento pouco adequado dos dois?
Quando Angel retornou ao Black Bollier, encontrou-os em paz. Rory tomava caf, e o proprietrio bebia um drinque irlands. Lorcan estava acomodado no bero, sobre uma cadeira, a um canto do bar.
Ambos os homens a fitaram quando ela entrou carregando dois pacotes gigantes de fraldas descartveis. Os cabelos escuros brilhavam por causa de minsculas gotas de chuva, parecendo diamantes sobre um veludo preto.
Angel viu-se enrubescendo ao encontrar o olhar de Rory. Lembrou-se de que ele a fitara daquele jeito havia bem pouco tempo...
Sentiu-se constrangida e tolhida pela necessidade de ser educada diante de Alan Bollier e mais insegura ainda ao descobrir que ficava curiosamente sem defesas diante de Rory naquele momento. Ele parecia diferente, os olhos brilhavam e uma onda de calor exalava de seu ser.
Nada mais natural, pensou Angel. Um homem realmente deveria parecer diferente aos olhos da mulher com quem acabara de fazer amor da maneira mais apaixonada possvel.
Rory estava vestido de preto e mesmo assim as roupas no o faziam parecer como se estivesse de luto. Apenas enfatizavam a altura fenomenal, os ombros largos.
 Caf, Angel?
 Sim, por favor!
 Parece estar com frio  comentou, ao servir-lhe uma xcara do lquido fumegante.
Ela fez sinal de negativa com a cabea ao aceitar o caf e sentar-se prxima a Lorcan, dando uma olhada no bero e sorrindo.
 Frio no. Apenas estou um pouco molhada, s isto.
 Ah, as chuvas da Irlanda!  proclamou Alan Bollier sentimentalmente.  E o que d s mulheres seus belos contrastes.
Rory sorriu, concordando inteiramente. Naquele momento as bochechas de Angel mesclavam-se em tons de rosa e creme, mas no parecia ser uma hora apropriada para lhe fazer um elogio.
 Poderemos partir quando voc estiver pronta  disse-lhe.  Conseguiremos pegar a balsa a uma e quarenta e cinco se nos apressarmos.
 Acho que no deveramos correr muito em pistas molhadas com um beb  falou Angel ansiosa.
Os dois homens trocaram olhares, e Alan Bollier falou:
 As mulheres fazem isto o tempo todo. Tiram a diverso de tudo!
Angel o fitou.
 Isto  chamado de bom senso, sr. Bollier. E se no parece estar faltando na metade masculina da espcie, ento seria melhor que vivssemos em mundos separados.
Ambos os homens irromperam em risos, e Angel sentiu-se estranhamente triunfante, imaginando o que teria acontecido com ela. No era de sua natureza estar em um bar com dois homens.
No entanto, sentia-se imensamente poderosa, com uma sensao renovada de autoconfiana. Como? Seria possvel que o sexo pudesse liberar algo assim?
Talvez pudesse, decidiu. Talvez. Parecia que subitamente tudo ficara mais simples. Mas talvez essa reao dependesse do parceiro. Outro homem poderia t-la feito sentir-se vulgar, mas Rory no.
Havia resgatado seu orgulho ao lhe oferecer casamento se estivesse carregando seu beb. Dera-lhe a opo e, ao fazer aquilo, tambm a fora, o poder.
Lanou a ele um sorriso de gratido e teve a satisfao de obter uma expresso de perplexidade em resposta.
 Devemos ir?  indagou Angel.  J so quase onze horas.
 Quando estiver pronta.
Era um dia muito sombrio. A densa cortina de chuva bloqueava a viso colorida das montanhas, ento apenas seu formato se desenhava de maneira alarmante. A estrada se espraiava adiante como uma cobra.
A jornada para Rosslare demorou menos de duas horas. Rory havia previamente reservado dois lugares para adultos mais o carro na balsa. Lorcan poderia ficar no colo de um dos dois.
Angel arqueou as sobrancelhas quando ele apareceu com os bilhetes.
 E se eu no houvesse concordado em voltar com voc?
 Ento um bilhete seria desperdiado.
Ficou imaginando se o fracasso de traz-la teria ao menos lhe ocorrido. Provavelmente no.
Angel acomodou-se no assento ao lado de Rory e olhou ao redor com interesse, pensando nas mudanas acontecidas desde a primeira vez em que fizera aquela jornada, aos vinte anos de idade.
Na ocasio escolhera tomar a balsa comum porque era mais barata. E mais lenta tambm.
Alcanaram Fishguard s trs e meia, e o dia continuava nublado. As estradas estavam lisas e escuras por causa da chuva, a luz se refletindo na pista.
Angel ajeitou-se melhor no assento, confiando plenamente nas habilidades de Rory ao volante. O irmo dele costumara arriscar-se, ultrapassando outros carros em situaes de perigo, mas Rory era o oposto...
Recriminou-se. Dissera que no faria aquilo. No iria comparar os dois irmos... Especialmente depois do que havia acontecido...
Rory a julgou tensa e ficou imaginando o que seria responsvel por aquilo.
  esquisito?  indagou com cuidado.  Estar de volta  Inglaterra?
Ela considerou o assunto.
 Parece haver passado um tempo imenso desde que estive aqui. Outra vida, na verdade.
Virou-se e observou o perfil msculo, momentaneamente endurecido ao ser iluminado por um farol.
 Como voc vive aqui na Inglaterra, Rory?
 Tenho um emprego muito exaustivo como advogado especializado na rea trabalhista...
 Voc ajuda pessoas que no podem pagar um advogado?
 De certo modo sim.
 Nunca se sentiu tentado a dedicar suas habilidades aos mais famosos escritrios?
Ele fez sinal negativo com a cabea. A convico que sentira aos vinte anos jamais o abandonara.
 Nunca  respondeu sorrindo.  Tenho um lindo apartamento em Wimbledon e s se pode comer apenas trs refeies por dia...
 Eu sei. E usar apenas uma cala comprida por vez  interrompeu-o, sorrindo.
 Exatamente! Trabalho muito, mas gosto. E quanto a lazer, bem, aprecio ler e jogar tnis. Mas posso ser persuadido a ir ao teatro de vez em quando se a pea for de Arthur Miller. Isto responde sua pergunta?
Angel sorriu na escurido. A iluminao da estrada apenas vez e outra atingia o interior do carro.
Por que os homens sempre respondiam perguntas com fatos irrelevantes?
 Na verdade no. E quanto a amigos?
 Tenho amigos.
 E amigas mulheres? Ele suspirou.
 Por que as mulheres sempre querem saber sobre outras mulheres?
 Oh, nascemos com isto  respondeu docemente.  E ento? Tem namoradas?
 Tenho muitas amigas mulheres  murmurou.
 Tenho certeza de que tem, Rory. Mas no foi a isto que me referi.
 No? Voc est falando sobre amantes, no  Angel? O mero pensar nas amantes de Rory a fazia ter vontade de gritar de cime, mas no o deixaria saber daquilo.
 Acho que sim.
 Quer saber se existe algum especial? Algum importante?
 Acho que deve haver  disse Angel quase sem ar.  Afinal de contas, voc tem trinta e quatro anos, e os homens ingleses tendem a estabelecer-se muito mais cedo do que os irlandeses.
 Talvez seja por isto que o nmero de divrcios na Irlanda seja mais baixo.
 Acho que provavelmente tem mais a ver com a influncia da igreja  considerou Angel secamente.  O que voc estava dizendo?
Rory sorriu diante de sua persistncia.
 Apaixonei-me duas vezes antes de completar vinte e cinco anos, mas tive o bom senso de reconhecer que nenhuma delas seria uma parceira adequada para a vida toda.
 Oh, percebo  falou lentamente, achando muito frio e calculado o comentrio.
 E desde ento?
 Desde ento houve um relacionamento muito importante em minha vida. O nome dela era Sarah, e voc a conheceu h bastante tempo.
Angel perscrutou a memria tentando se lembrar da mulher que ele levara ao cartrio para testemunhar seu casamento com Chad.
 Ela era loura? E esguia? E por acaso no trabalhava com voc?
 Sim, sim e sim.
 Mas voc fez tudo soar como se fizesse parte do passado.
 E faz.
 Isto tem alguma coisa a ver com Lorcan?
 Como voc  perceptiva. Sim, tem algo a ver com Lorcan.
Rory podia sentir a expectativa dela e notou que Angel no era mulher de se ver satisfeita com respostas vagas.
 O qu, exatamente?
 Bem, estvamos namorando h cerca de trs anos...
 Moravam juntos?
 No. No havia qualquer necessidade. Percebeu a incredulidade de Angel e tentou explicar melhor sua opinio.
 Ambos trabalhvamos demais e tnhamos vidas independentes. Quando nossas rotinas convergiam, tudo funcionava bem. Voc sabe o que dizem. Se algo no est quebrado, por que consert-lo?
  o que dizem? Ento o que aconteceu?
 Quando...
Engoliu em seco ante a dolorosa lembrana.
 Quando Lorcan ficou rfo, Sarah achou melhor que ele fosse adotado.
Ouviu a indisfarada amargura em sua voz.
 E voc discordou?
 Como eu poderia priv-lo da nica pessoa da famlia que havia lhe restado?
 Diversas pessoas poderiam dizer que voc era incapaz de lhe proporcionar a famlia de que precisava  Angel lhe falou com certa brutalidade.  Poderiam ter dito que um ncleo familiar estabelecido era o melhor lugar para um beb.
 Voc honestamente pensa assim?  desafiou-a.
 No  respondeu simplesmente.  Eu no. Mas voc no devia fazer de Sarah um lobo mau apenas porque ela deu sua opinio, que por sinal deve corresponder  da maioria das pessoas.
Ele riu, mas era um som irnico.
 O beb realmente no constava do topo da lista das prioridades de Sarah e, para ser justo, por que deveria?
"Se ela amasse Rory de verdade, ento teria abraado seu filho adotivo", pensou Angel, mas nada falou.
 Quando ela percebeu que eu tinha inteno de manter Lorcan comigo, ofereceu-se para morar em minha casa e cuidar dele.
 E casar-se com voc?
 Bem, esta era a idia.
 Mas voc no quis.
 No.
 Isto no teria tornado tudo mais fcil?
 Para quem? Certamente no para mim. Se eu quisesse morar com Sarah j teria feito aquilo. Certamente no precisaria de Lorcan. No queria Sarah perto dele  falou com uma sbita falta de candura.
 Por qu?
 Porque ela no se importava com meu sobrinho. No tinha sentimentos por ele. Para Sarah, Lorcan era um fardo a ser tolerado, nada mais.
 Mas muitas mulheres se sentem assim quando comeam a cuidar de bebs, Rory, at mesmo as prprias mes  defendeu Angel.  Quando os pequenos crescem passam a am-los. E isto  natural. A idia de um lao instantneo pode vender artigos para bebs, mas no necessariamente acontece de fato.
 Se meus sentimentos por Sarah fossem fortes o bastante, ento eu poderia ter lidado com sua reao inicial. Mas s ento me dei conta de que estava dando prosseguimento a um relacionamento porque era confortvel, fcil e porque exigia pouco esforo de minha parte.
 Ento disse adeus a Sarah?
 No h motivos para fazer com que eu me sinta um tirano.
 Ento foi uma separao amigvel, como dizem?
 Bem, no exatamente  admitiu.  O rompimento me fez perceber quanto o relacionamento era unilateral. Um rompimento nunca pode ser verdadeiramente amigvel se um ama mais do que o outro. E se o final da relao parece ser nada mais do que uma inconvenincia.
As palavras dele foram como uma revelao para Angel. Como se subitamente houvessem tirado um fardo de sobre seus ombros, algo que ela nem sabia que carregava.
Nunca amara Chad, percebeu subitamente. Nem o inverso era verdadeiro. O casamento fora um engano, e sua virgindade nada mais do que um mecanismo de barganha. Chad ferira seu orgulho, no seu corao.
 Ento voc se separou de Sarah e decidiu pedir minha ajuda  disse Angel vagarosamente.
 Exatamente.
 Mas, Rory, por qu? Por que eu? Apenas porque eu era bab?
 Exatamente.  Ele parecia indignado como se no estivesse habituado a agir com base nos instintos.  No sei! No planejei. Tinha de lhe telefonar para contar sobre o acidente e ento de repente, durante nossa conversa, tudo pareceu se encaixar.
 Porque eu era casada com Chad? Voc achou que eu amaria o beb...
 Tanto quanto amou Chad?
Angel balanou a cabea. Em vista do que acontecera na noite anterior era importante que ele soubesse da verdade, mas sabia que ficaria irado tambm. Porque a verdade era, para todos os efeitos, um ato de deslealdade.
 Nunca amei Chad  falou dolorosamente.  Percebo isto agora.
 Sei, sei.
Ele falou de um jeito quase ausente, como se estivesse a milhas de distncia, ou aquilo lhe fosse de pouca importncia. Angel sentiu-se estranha, desapontada e se fechou em si mesma.

Angel percebeu que adormecera porque tinha a boca seca, e a testa e o pescoo doam. Ouviu Lorcan protestando e julgou ter sido aquilo que a havia acordado.
Rory a fitou de soslaio, achando-a muito plida e lembrando-se de quando uma amiga lhe disse que sentira o exato instante da concepo.
Como se algumas mulheres tivessem uma espcie de habilidade mstica para detectar a momentnea mudana que acontecia em seus corpos.
Angel estaria grvida? Estaria carregando um filho seu no ventre naquele exato momento?
Sentiu o corao bater descompassado, assustado com aquela possibilidade.
 Acha bom pararmos em algum lugar para nos refrescarmos? Poderemos tomar um pouco de ch, se quiser.
 Eu adoraria.
Angel cobriu a boca e bocejou.
 Prometo parar de dormir enquanto voc dirige. 
Ele riu, incapaz de pensar em uma outra mulher que pudesse tolerar uma jornada to longa, em meio a um tempo inspito, e com um beb.
 Combinado!
Aproximava-se das oito da noite quando finalmente chegaram ao apartamento de Rory, situado no segundo andar de um prdio moderno.
Angel conhecia pouco sobre Wimbledon. Sabia que o famoso torneio de tnis mundial acontecia ali todos os anos, e que a vida noturna era intensa.
Rory apertou um interruptor na parede e imediatamente diversas luzes se acenderam ao longo do ambiente. Eram minsculas no teto, pouco maiores do que uvas.
Havia um grande abajur feito de ferro sobre uma mesa de vidro baixa. A iluminao obviamente fora feita por profissionais, e destacava as pinturas que cobriam as paredes e o piano branco a um canto da sala.
Rory colocou o bero no cho.
 Venha. Vou lhe mostrar o restante. Seguiu-o at a cozinha modulada. Cada pea cintilava e parecia ter sido retirada de uma revista de moda. O microondas seria capaz de desafiar qualquer engenheiro eltrico.
Ele acendeu uma chaleira e apoiou-se em um lindo balco.
 Bem, o que voc acha?
Angel estava acostumada a cozinhas grandes e antiquadas. Aquelas em que botas cheias de lama podiam descansar despercebidas a um canto, e cachorros encontravam diversos lugares para se aconchegar.
Cozinhas eram locais onde sempre havia comida em preparo, um suave borbulhar de um molho com cheiros tentadores. Deu uma olhada preocupada para o forno.
 No posso imaginar uma pessoa fazendo po ali  disse-lhe.
 No h necessidade  respondeu de modo levemente glido.  H uma padaria excelente na esquina.
Rory saiu da cozinha, e ela o seguiu.
 Os quartos ficam por aqui.
O quarto dele parecia ter sido emprestado de um filme dos anos oitenta, com uma cama obscenamente grande com um espelho no teto.
 Muito tpico de um macho  comentou meio nervosa, e sentindo urgncia em rir.
 Ainda no tive tempo de troc-la  resmungou, imaginando por que ela o fazia agir to na defensiva.
Para ser honesto, tambm detestava a cama, mas no conseguira conter o entusiasmo ao olhar o catlogo do decorador.
Uma cama era apenas uma cama, afinal, mas naquele momento, ao notar o olhar de desaprovao de Angel, percebeu que talvez pudesse estar enganado. E por falar em cama...
Virou-se e a fitou.
 Angel?
 Sim?  respondeu, tentando evitar transparecer sua resignao.
 E se...
Era inusitado, mas sua voz falhou na tentativa de encontrar as palavras corretas. Ele, um advogado, que absurdo! Mas a presente situao era muito difcil, procurou consolar-se.
 No podemos continuar fingindo que nada aconteceu. E se voc estiver grvida?
 Ento atravessamos aquela ponte proibida e nos demos mal  respondeu Angel automaticamente, antes de levar a mo  boca.  Nossa, no posso acreditar que tenha dito isto!
A despeito de tudo, ele riu da expresso cmica em seu rosto.
  a espcie de coisa que mame teria dito!  declarou, e suas bochechas tornaram-se cor de prpura ao v-lo pensar exatamente a mesma coisa que ela.
E se Angel fosse me?
 Voc sabe, realmente precisamos discutir...
 No!  gritou Angel com um fervor que espantou a ambos.
Aquela sesso afoita na cama do Black Bollier fizera Angel estabelecer que nunca mais se sentiria menor do que Rory.
 Qual o objetivo de discutirmos isto? Se eu no estiver grvida, ento ser perda de tempo e se estiver, bem, ento tudo que dissermos ser hipottico, porque no sabemos como nos sentiremos a respeito. No mesmo.  Fitou-o, os olhos verdes mostrando sinceridade.  Estou certa, no estou, Rory?
Aquele era o problema! Ela estava certa!
 Acho que sim  disse suspirando ao dirigir-se para os outros quartos.
Ao menos uma pergunta fora respondida, mesmo sem ser proferida. A julgar pela expresso de Angel ao olhar para a enorme cama, era bvio que no gostaria de dormir naquele leito a seu lado.
Os demais quartos estavam pintados em tons de azul, escarlate ou esmeralda.
 Qual  o de Lorcan?  indagou Angel com voz fraca.
 Ele est dormindo em meu quarto.
 No h bero?  inquiriu, tentando imaginar um dos quartos pintado de um tom bem claro, com mobiles balanando ao sabor da brisa e brinquedos.
 Ainda no.
O banheiro do apartamento era o nico ambiente gracioso, decidiu Angel. Era tpico dos que apareciam em filmes, com uma banheira do tamanho de uma pequena piscina e diversos frascos de vidros muito alinhados em obsessiva ordem, revelando a passagem de uma faxineira profissional por ali.
 Gostou?  indagou Rory, sorrindo quando retornaram  sala de estar.
No poderia mentir.
 No muito, para ser honesta.
Rory ficou imvel. Estava acostumado  adulao. Muita adulao.
 Fala srio?
 Totalmente.
 Poderia me explicar por qu?
Angel caminhou pela saa em direo  vasta janela e aproximou-se da cortina, segurando-a entre o indicador e o polegar. Era de seda creme e o bando de um suave tom de cinza.
 Olhe para isto!  acusou, mexendo no tecido. Rory franziu a testa.
 No gosta?
 No  questo de gostar.  maravilhosa! Mas pertence s pginas de uma revista, Rory. Ou  sala de um solteiro que pode arcar com os custos da lavanderia todo ms.
 E da?
 Da que voc no est qualificado para assumir aquele compromisso adormecido ali! H um bebezinho agora, e sabe o que isto significa? Sabe o que vai acontecer quando ele comear a engatinhar? A colocar as mos sujas de chocolate nesta seda delicada?
Uma expresso de horror passou pelo rosto de Rory.
 Ele no vai comer chocolate at estar em idade de ir para a escola  rebateu.
Angel podia apostar no contrrio, mas no discutiria o assunto naquele momento.
 Gelia, ento.
 A mesma coisa.
Angel abriu a boca, mas ele falou antes que tivesse oportunidade de protestar.
 Lorcan far todas as refeies de maneira civilizada. Ele ir comer  mesa. Como eu fao.
Angel no falou uma palavra. Conhecia tudo sobre novos pais e suas idias. O que seus filhos poderiam ou no fazer. Rory descobriria por si mesmo e em breve que a educao de um filho estava repleta de contratempos.
 Voc concorda?  indagou ele.
 Na teoria.
Angel aproximou-se de um esplndido vaso de vidro azul que estava sobre a lareira.
 E quanto a isto?
 No se preocupe, vou tir-lo da.
 E a televiso?
 Mesma coisa.
 timo. E assim que o apartamento estiver totalmente seguro para o beb, teremos de pensar com muito cuidado em outros equipamentos.
 Equipamentos? Que espcie de equipamentos?
 Bem, no poderemos ter um cercado bem grande  moda antiga para podermos ficar sentados com o menino l fora, ao sol, pois no temos quintal. Um de ns ter de ficar observando Lorcan o tempo todo, pois o jardim  comunitrio e no vamos querer que o menino corra riscos.
Houve um breve silncio.
 O que voc sugere que faamos para facilitar o desenvolvimento do beb, Angel?  indagou pesadamente.  Tem idias?
 Claro que tenho!
Sorriu brilhantemente, sabendo que sua idia era realmente tima, mas consciente de que deveria estudar uma boa ttica para a revelar.
 Vamos procurar por uma casa assim que tivermos tempo!

O agente imobilirio olhou de Rory para Angel com evidente confuso.
 Apenas para me certificar de algumas exigncias  disse o homem, olhando para o formulrio incompleto diante de si, antes de lhes oferecer um sorriso profissional.  Vocs no querem uma propriedade que seja moderna, nem um apartamento, correto?
 Correto  falou Angel assertivamente, ignorando o olhar sombrio de Rory em sua direo.
 Querem uma propriedade ao sul do rio, com quatro ou cinco quartos, trs salas...
 Com um jardim!  complementou Angel.
 Com um jardim  recitou o agente com obedincia antes de olhar de um para outro.  Mais alguma requisio?
 Seria bom se fosse prxima a um parque  disse Angel.
 Prxima a um parque  escreveu e olhou para eles.  Vocs so...
Ele se interrompeu. No se podia arriscar nos dias atuais, nem mesmo havendo um beb entre os dois. Estava no ramo havia vinte anos e sabia que casamentos eram cada vez mais raros.
 Rory e Angel Mandelson  disse Rory.
 Oh, certo! Ento so casados?
 No!  falou Angel rapidamente.
O agente comeou a parecer seriamente perplexo.
 Irmo e irm?  inquiriu preocupado, tentando no olhar para o beb.
Angel riu quando saram do escritrio e entraram em um parque.
 O que ele deve ter pensado?
O orgulho de Rory ainda estava machucado pelo modo como ela, aterrorizada, negara que fossem casados.
 No estou nem um pouco interessado.
 Por que est bufando?
 No estou bufando.
 Claro que est.
Ele riu e ficou pensando em como um aborrecimento ia embora com tanta facilidade quando estava ao lado de Angel.
 Est bem, ento estou.
 Que bom que reconheceu!
Observou-a caminhar a sua frente. Usava jaqueta escura e cala jeans justa. Rory engoliu em seco e procurou alcan-la.
 No vai me perguntar por qu?  indagou ele. Angel o fitou por debaixo da aba do chapu cujo tom combinava com seus olhos. Haviam ido comprar roupas para Lorcan, e o chapu estivera ali, apenas esperando para ser comprado. Rory insistira em lhe dar de presente, e Angel ficara muito contente.
 Por que o qu?
 Por que estou bufando.
Ela retorceu o nariz de um modo exagerado ao repetir as suas palavras.
 No estou nem um pouco interessada! 
Rory sorriu e observou Lorcan dormindo.
 Gostaria de caminhar?
 Adoraria  respondeu, inclinando-se para cobrir melhor o beb.  Ns s precisaremos aliment-lo daqui a duas horas.
 Poderemos comprar um cercado quando chegarmos  nova casa  observou ele pensativamente.  E nos sentarmos ao sol, como voc queria.
Naquele instante Angel teria alegremente lhe dado um abrao, mas hesitou. Abraar era um hbito pouco apreciado entre os ingleses.
Fazia duas semanas desde que chegara  Inglaterra naquela noite fria e sem estrelas. Quinze dias durante os quais percebera que seu amor pelo beb crescia a cada instante. Seria muito difcil deixar de sentir o mesmo por seu tio...
O vento de fevereiro assanhou seus cabelos enquanto caminhavam pelo parque. Rory a observou de soslaio, pensando em como a vida tinha o curioso hbito de no transcorrer do modo que se esperava. Ento pensou em Chad e sentiu um arrepio.
A vida, pensou subitamente, era para ser vivida. Toda aquela bobagem sobre postergar as coisas para o dia seguinte no fazia sentido. Todos sabiam qu o amanh podia nunca chegar.
 Quero lhe perguntar algo?  ele indagou de repente. 
Angel evitou fit-lo. Segurou com fora o ferro do carrinho. Tinha idia do que o preocupava.
 Faa a pergunta.
Para um homem que passava a vida fazendo indagaes, aquela se mostrava muito difcil de ser articulada.
 Angel, isto  muito difcil para mim...
Angel parou e o fitou diretamente nos olhos. Era difcil para ele? Como achava que era para ela ento?
A cada manh que acordava ficava imaginando se aquele seria o dia. O dia em que sua menstruao chegaria, e que se decepcionaria em ver que o alarme era falso!
 No  fcil para mim tambm, Rory.
Ele prendeu a respirao, desejando que nada daquilo houvesse acontecido. A morte de Chad. O encontro passional dos dois. Tudo. Bem, no exatamente tudo. Lorcan no. Bebs davam trabalho, sem dvida. Passava-se o tempo todo cuidando do pequeno ou andando feito um zumbi devido  falta de sono. Mas no poderia ficar sem o menino. Jamais.
 Qual o dia previsto para sua menstruao?
 Logo. Muito em breve.
 Oh, por favor, Angel  protestou.  Que espcie de resposta  esta?
 Se eu lhe der uma data exata, vou me sentir controlada. Toda vez que eu for ao banheiro, haver uma pergunta em seus olhos! Sim, haver, Rory!
Ele comeou a rir. Angel era mesmo impossvel!
 Se outra pessoa dissesse isto, eu ficaria chocado!
 Estou muito espantada!  admitiu pensativamente.  Nunca falei algo assim a outra pessoa.
 Ento o que a fez mudar?
Ele imaginava que fora sua falta de responsabilidade, sua maneira egosta ao fazerem amor.
Angel deu de ombros, mas sabia que em seu corao existia uma resposta.
 A morte de Chad, eu acho.
Rory sentiu-se perturbado pelo cime que o tomou.
 Porque voc percebeu que o amava, quer dizer? 
Ela balanou a cabea e uma mecha de cabelos pretos caiu sobre os olhos verdes.
 No, Rory. Quero dizer exatamente o oposto.
 Explique melhor.
Ela tentou escolher as palavras com muito cuidado.
 Acho que no sabia o verdadeiro sentido do amor na ocasio. Casei-me com Chad por todos os motivos errados. Porque fui criada valorizando minha virgindade como se fosse uma espcie de prmio, e estava muito solitria em Londres. Ter Chad por perto significava que eu no teria de pensar em mim.
 Prossiga.
O olhar dela se distanciou, estava mergulhada nas lembranas.
 Quando Chad partiu, fiquei com raiva e vazia. Oh, no conseguia pensar direito. Tentei viver de modo independente em Londres, manter contato com os amigos que ambos havamos feito, mas meu corao no participava daquilo. E nenhum deles me aceitava de fato, para ser bem honesta. Chad tinha uma personalidade muito forte e partira sem cortar as amarras que ainda me prendiam a ele. Quando retornei  Irlanda, no pretendia ficar...
 Mas voc ficou.
 Sim, fiquei. Porque era cmodo.  como se eu houvesse deixado minhas emoes em um lugar distante  confessou, percebendo que aquele homem sabia mais sobre seus sentimentos do que qualquer outra pessoa.  E ento, quando voc me deu a terrvel notcia, foi como se me despertasse de um sonho. E sim, houve dor, mas senti que estava viva! E percebi que poderia ter desperdiado toda minha vida naquela existncia fantasmagrica. Cresci. E decidi que daquele momento em diante iria ser verdadeira comigo mesma.
Rory digeriu as informaes em silncio, a conscincia cada vez mais atribulada. Seria culpado por ter continuado a v-la como uma jovem irlandesa malevel em vez de t-la encarado como a sincera, linda e sensvel mulher que era?
Mas ele a havia tratado como mulher e no garota, no era mesmo? Respondido de maneira impetuosa e intuitiva, era verdade, porque algo alm de seu domnio o havia motivado a agir. Ousaria aceitar aquilo? Para si mesmo e talvez para ela?
 Eu posso ter arruinado sua vida  sugeriu ele, desconfortavelmente.  Se voc estiver carregando meu beb.
O corao de Angel apertou-se diante das palavras possessivas de Rory, mas forou-se a se autocontrolar.
 Isto  um tanto dramtico, Rory  provocou-o.  Arruinar minha vida!
A insolncia de Angel comeava a irrit-lo.
 Voc est encarando esse assunto de maneira leviana  acusou-a furiosamente.
 Bem, e o que mais eu poderia fazer?  rebateu.  Aconteceu.  fato consumado. Nada podemos fazer a respeito agora. E pelo amor de Deus pare de agir como se fosse o lobo mau e eu a inocente...
  exatamente como me sinto!
 Mas no h razo para isso! Eu sabia o que estava fazendo. Assim como voc.
 Mas eu normalmente...
 Nem eu! Mas em algum nvel inconsciente e primitivo ambos tomamos uma deciso naquele momento e nos comportamos de um jeito que normalmente no adotamos. E da? Seres humanos ocasionalmente se comportam de maneira inconseqente, voc sabe, Rory. Ento, por favor, tire essa carranca do rosto e leve-nos para comer alguma coisa.
Ento, conforme vinha acontecendo desde que Angel entrara em sua vida, Rory flagrou-se momentaneamente sem palavras.



CAPTULO XI


Angel entrou na sala de jantar e sentou-se  mesa do lado oposto a Rory. Observou-o alimentar Lorcan por entre folhas do jornal matinal e diversos pacotes de cereais. O rosto dela estava plido e o corao pesaroso.
 Sabe de uma coisa? No estou!  anunciou.
Rory estava a milhas de distncia. Suas frias estavam quase terminando. A falta de entusiasmo em retornar ao trabalho na semana seguinte fora totalmente eclipsada pela emoo de ter encontrado a casa de seus sonhos no dia anterior. Era a espcie de casa para a qual nem teria olhado, no fosse por Angel.
 Mmm?  perguntou de modo ausente.  No o qu?
 No estou grvida!  murmurou e irrompeu em lgrimas.
Rory estava acostumado a lidar com mulheres chorosas. Enfrentava aquilo diariamente nos tribunais. Mas naquele momento no sabia como agir.
Deveria se aproximar para confort-la ou seria melhor oferecer palavras de consolo a distncia?
No pde fazer nada. Angel comeou a interrog-lo de um modo que era decididamente hostil.
 Aposto que est feliz agora  declarou ela.
 Feliz?
Felicidade no descrevia o vazio em seu corao.
 Sim, claro, Angel. Estou delirando.
 Mas voc est livre da responsabilidade! No est? 
Rory ponderou os prs e contras da situao.
 Suponho que esta seja uma maneira de encarar o fato  respondeu racionalmente.
Obviamente disse a coisa errada. Angel comeou a soluar, ultrajada, fazendo Lorcan protestar e interromper por alguns segundos sua refeio.
 Por que no toma um pouco de ch?  sugeriu Rory calmamente, desejando no estar com o beb nos braos naquele momento conturbado.
 No quero ch!
E comeou a chorar novamente.
Rory a deixou chorar enquanto terminava de alimentar Lorcan, decidindo que era melhor ela colocar as emoes para fora. Ento levou o pequeno para o andar de cima, trocou sua fralda, colocou-o em seu novo bero e deu corda no mbile musical, comprado dois dias antes.
A coisa boa sobre bebs muito pequenos, pensou Rory, ao ir para o andar de baixo procurar por Angel, era que precisavam de pouco para ficarem entretidos. Podiam virar a vida de uma pessoa de cabea para baixo, e depois dormiam tranqilos.
Encontrou Angel na sala de jantar. Ainda fungava, mas estava claramente mais recomposta do que minutos atrs. Rory pegou a chaleira, fez um ch forte e bem quente, preparou torradas com manteiga e colocou tudo diante dela.
 Coma  instruiu-a.
 Eu no...
 Coma  repetiu, sentindo-se estranhamente protetor.
Angel obedeceu. Deu uma mordida em uma torrada, bebeu o ch e sentiu-se melhor depois.
 Sinto muito.
 No importa  respondeu ele, observando seu rosto plido.  Voc fica assim todo ms?
Angel o encarou, com vontade de jogar alguma coisa em seu rosto. Como podia ser to objetivo? To tolo?
  claro que no  respondeu e ento suspirou. 
Rory continuava encarando-a. Puxa, poderia ficar observando-a o dia todo. As lgrimas j haviam secado. Parecia to pequenina, doce e indefesa. E, para ser bem sincero, sentia-se satisfeito por ela no estar grvida.
Poderiam comear tudo de novo... Mas daquela vez usariam preservativos.
Angel o observou pelo canto do olho, desesperadamente divagando sobre o que estaria passando pela cabea dele. Sentia-se to vulnervel sob a influncia dos hormnios, que no ousava lhe perguntar.
Se ao menos ele pusesse o brao sobre seus ombros em vez de ficar sentado ali, analisando-a como se fosse um bicho de laboratrio.
Rory suspirou, desejando poder lev-la para a cama imediatamente, ansioso por t-la em seus braos. Comeava a calcular quando seria decente fazer seu primeiro movimento.
Ento ficou imvel. Em que pensava?
Aps tudo por que ela passara, imaginava voltar a seduzi-la como um monstro maquiavlico! Como podia sequer contemplar algo to baixo e rude?
Angel passara toda sua vida adulta sendo pressionada, primeiramente por Chad e ento por ele. Chad quisera sua virgindade e no se propusera a esperar, por isso a forara a assumir um casamento doentio, algo com o qual ela no estivera emocionalmente preparada para lidar.
E Rory usara a paixo para coagi-la. Ela no tivera chance alguma de postar-se contra sua experincia.
Queria-a desesperadamente, era verdade, e no tinha dvida de que a poderia fazer desej-lo tambm. Mas no queria induzi-la a nada. J era hora de Angel Mandelson comear a pensar por si mesma. Se o quisesse, teria de vir at ele.
 Vou limpar tudo por aqui  Rory declarou tranqilamente.  V descansar, refrescar-se, o que preferir. Quando Lorcan acordar, sairemos para passear.

 Aqui h tudo o que uma famlia pode almejar  disse o agente imobilirio que desistira de tentar descobrir que espcie de relacionamento existia entre o casal de clientes.
Apesar do talento natural do corretor para exagerar nas qualidades do imvel, Angel viu-se obrigada a concordar com cada palavra. Era a casa de seus sonhos. Tinha um hall bem grande e uma bela escadaria de madeira  moda antiga.
A cozinha era espaosa at mesmo para os padres irlandeses. Havia vidro jateado nas portas e janelas e as paredes eram altas.
Na frente da residncia havia um jardim e nos fundos uma breve colina terminava em uma fileira de rvores e arbustos onde um garotinho poderia brincar feliz durante horas. Mas seria necessrio muito trabalho para transformar aquela casa em um lar acolhedor.
 Levar anos at que esteja perfeita  ela se queixou para Rory naquela manh.
 A gratificao ficar postergada ento  falou Rory friamente.  Livros dizem que a espera faz bem para a alma.
Na semana seguinte Rory retornou ao trabalho, os sentimentos em desalinho. Sofria por ficar longe de Lorcan e de Angel o dia todo.
Usufrura de uma rotina diferente no decorrer das ltimas semanas, empurrando o carrinho do beb nos passeios, indo s compras e cozinhando. Haviam sido dias preguiosos e lentos.
Mas sentia-se aliviado por ter com o que se ocupar fora dali. Ficaria mais afastado de uma situao que se tornava muito tensa. Afinal, brincava de casinha com a adorvel Angel, mas sem experimentar uma das melhores coisas que vinham com a convivncia.

Rory inclinou-se sobre Lorcan e lhe deu um beijo de despedida. Brevemente contemplou o que aconteceria se fizesse o mesmo com Angel. Mas o olhar belicoso dela no o deixou nem tentar!
 Voc pode supervisionar o pessoal da reforma, no  Angel?
 Provavelmente poderei dar conta disto  respondeu friamente.
Rory deu uma olhada nas amostras de materiais para decorao.
 Voc pode escolher a decorao tambm. 
Sorriu, parecendo nada familiar e muito formal no terno escuro.
 Para a casa toda?
 Para a casa toda  assentiu, sorrindo.
 Sozinha?
 Claro.
 Mas no posso fazer isto, Rory!
 Por que no?
 Porque a casa  sua!
 Est bem.  Deu de ombros e pegou o livro mais prximo.  Fique  vontade. Eu mesmo escolherei. Teremos uma cozinha roxa...
 D-me isto!  exclamou Angel, abraando o livro. 

A decorao da casa ocupou grande parte de seus dias. Era a primeira vez que tinha liberdade para ser criativa e descobriu que tinha talento para aquilo.
 Que adorvel!  comentou Rory certa noite aps O jantar, quando ela lhe mostrou o modelo de azulejo que escolhera para um dos banheiros.
 Obrigada  agradeceu satisfeita e virou a pgina do livro sobre decorao pensativamente.   claro, ter dinheiro suficiente ajuda, embora eu ache que poderia com facilidade obter o mesmo efeito com menos.
 Quer que eu lhe coloque um desafio?  provocou-a.
 No, obrigada!
Angel comeara a freqentar com Lorcan uma reunio de mes de recm-nascidos. Queria encontrar outras mulheres com bebs, pois sentia falta de trocar experincias.
Rory tambm comeara a apresent-la a seus amigos. Havia entre eles atores, outros advogados e algumas pessoas que trabalhavam com comunicao. A maioria era bem-sucedida e todos tinham em comum um excelente senso de humor.
Eles a haviam aceitado de imediato e alguns manifestaram interesse em saber qual era a natureza precisa de seu relacionamento com Rory.
Angel suspirou ao observ-lo inclinar-se por sobre o bero naquela noite. Era algo que ela tambm gostaria de entender melhor: o relacionamento deles!
Pensou que...
O que tinha pensado?
Que assim que sua menstruao cessasse, Rory a carregaria para o quarto para repetirem aquela faanha sedutora e memorvel?
Deliberadamente procurara ignorar todos seus sentimentos por Rory. Mas assim que soube que no estava grvida, tais sensaes vieram  tona.
E permaneciam pulsando.
Tinham um bom relacionamento. Conversavam praticamente sobre tudo. Instaurava-se naquela casa uma nova dimenso de intimidade.
Mas ainda assim Angel ainda no sentia coragem nem confiana suficientes para lhe perguntar se ainda a achava atraente.
Passou uma tarde fazendo massas e cantando para Lorcan, perguntando-se se o susto da gravidez teria deixado Rory apavorado para sempre.
Mas no poderia passar a vida toda andando em crculos, fazendo a si mesma perguntas que no poderia responder.
Era melhor tomar uma atitude positiva e correr o risco da rejeio.
Quanto mais pensava naquilo, entretanto, menos coragem tinha de elaborar uma espcie de plano de seduo.
Rory chegou  casa do trabalho e lhe perguntou se gostaria de sair para jantar com um amigo dele, um advogado distrital americano em visita ao pas.
 S eu e ele, voc quer dizer?  indagou, quase voando no colarinho de sua camisa.
Rory escondeu um sorriso.
 Eu esperava que a esposa dele e eu pudssemos ser includos.
 Oh! Sim, claro! Por um minuto pensei que voc estava tentando me arranjar um encontro s escondidas  admitiu com um suspiro de alvio.
Rory sentiu-se seriamente tentado a carreg-la para o quarto e lhe dar uma amostra do que pensava sobre encontros secretos. Mas, recordando-se de sua determinao em deixar que Angel tomasse a iniciativa, afastou a idia.
 Voc vai conhecer o Lorcan mais velho  anunciou, e Angel arregalou os olhos.
 Voc quer dizer... Seu amigo do curso de direito que ns... Voc...
 Ns  corrigiu-a com firmeza  decidimos dar este nome para o nosso Lorcan. Sim, isso mesmo.
 Ser fantstico! 
Ele sorriu.
 Isto quer dizer "sim", Angel?
 Eu adoraria! Mas e quanto a Lorcan, o pequeno Lorcan, quero dizer? Quem cuidar dele?
 Minha assistente est me implorando para ser bab. Acha que ser bom para sua carreira tornar-se amiga de meu filho!
Seus olhares se encontraram. Era a primeira vez que ele usava tal expresso.
 Voc ter de me pagar um extra, ento  Angel falou faceira, observando-o com ateno.
 Pensei termos concordado em que voc usaria meus cartes de crdito quando precisasse. Com viagens ao redor do mundo excludas,  claro.
 Sim, mas isto no  para Lorcan ou para comida  explicou com cuidado.  Preciso de um vestido novo se o jantar acontecer em um restaurante da moda.
Ele sorriu, lembrando-se de quando haviam comprado o chapu juntos. Nunca comprara roupas com uma mulher antes e gostaria muito de v-la em um vestido de noite...
 Gostaria que eu a ajudasse a escolh-lo?
Ela balanou a cabea, inexplicavelmente tmida.
 No, acho que no. Eu gostaria de ir sozinha, obrigada.
Houve um motivo para a recusa, era claro. Angel queria surpreend-lo naquela noite e sentira-se muito bem ao fazer o vestido de veludo verde escorregar por seu corpo.
Lamentava apenas que o nico vestido pelo qual se apaixonara fosse da mesma cor que seu chapu.
Ia at pouco acima dos joelhos, o corpete se moldava a seus contornos, e as mangas eram compridas. Ficou em p defronte ao espelho do quarto escarlate e deu uma voltinha para admirar o efeito.
Sem dvida o veludo verde combinava com seus olhos e o modelo fazia justia a seu corpo.
Lorcan Powers, o Lorcan mais velho, era grandalho. Angel pde ver exatamente por que os dois homens desenvolveram uma amizade que nem o tempo, nem a distncia geogrfica, puderam afetar.
Sua esposa Clare era cirurgi oftalmologista. Pequenina e esfuziante, mas no intimidadora. Apaixonou-se pelo beb instantaneamente.
 Quero um exatamente assim  confidenciou para Angel ao tomar Lorcan nos braos.
O Lorcan mais velho sentiu-se muito lisonjeado por o sobrinho de Rory ter recebido seu nome.
  uma homenagem e tanto a ser prestada a um homem, Rory  falou a seu amigo.
 No to grande quanto a prxima que irei lhe oferecer  respondeu com um sorriso especial.  Voc me daria a honra de tornar-se padrinho dele?
Lorcan assentiu, emocionado demais para falar, e Angel ficou encantada em ver os dois homens se abraarem.
Rory a apresentou simplesmente como Angel, no como bab de Lorcan, nem mesmo como viva do irmo. Ignorava, entretanto, o que ele havia falado anteriormente aos amigos a seu respeito.
Estavam em um sofisticado restaurante nos arredores da cidade de Londres,  beira do rio. A comida era deliciosa, embora extica e muito cara. Ao retornarem  cidade, levaram Lorcan e Clare at o hotel onde estavam hospedados. L assistiram a uma apresentao de piano e depois se despediram dos amigos.
Assim que chegaram  casa, Sandie, a assistente de Rory, ficou em p e desligou a televiso.
 Como ele est?  indagou Angel, imaginando se deixara a pobre garota nervosa.
 timo! Alimentou-se h mais ou menos uma hora  declarou Sandie.  E agora est dormindo.
Angel sorriu e ofereceu-se para fazer um caf para todos. Sandie recusou, alegando que estava tarde e que no gostava de dirigir aps a meia-noite. Rory a acompanhou at a porta.
Ele afrouxou a gravata ao voltar  sala de estar e lanou a Angel um sorriso tranqilo.
 Gostaria de uma bebida?
Angel mordeu o lbio inferior ante a lembrana de quanto haviam bebido naquela noite. Ficou imaginando se realmente precisavam de outra bebida, mas no queria que a noite terminasse, por isso assentiu.
 Sim, por favor. Mas espere um momento. Vou olhar Lorcan.
O beb dormia no bero azul e branco, a bochecha rosada e os cabelos sedosos ajeitados em pequenas ondas ao redor da orelha. Angel se inclinou para beij-lo e inalou o doce perfume da criana.
 Boa noite, querido. Tenha bons sonhos  sussurrou e foi para o andar de baixo.
Rory estava em p onde ela o havia deixado, servindo-se de um copo de suco. Angel flagrou-se desapontada por ele no ter apagado as luzes, colocado msica suave e uma garrafa de champanhe para gelar.
Talvez devesse ficar feliz por Rory no estar tentando seduzi-la nem pression-la a nada. No, no estava sendo sincera.
 Voc gostaria de qu?  perguntou Rory.  Suco? Caf? Vinho?
 Uma dose de usque!  respondeu e riu ao ver sua expresso de horror.  Brincadeira, Rory. E voc deveria rir.
 Hmm.
 Suco estar timo, obrigada  falou, desejando que ele tirasse aquela expresso sombria do rosto.
Sentaram-se para saborear os drinques, envoltos em um silncio desconfortvel. Angel abriu a boca para falar diversas vezes, mas ento achou melhor fech-la. O que havia de errado entre os dois naquela noite?
Rory desejava estar bebendo champanhe. Considerara a hiptese de colocar uma garrafa para gelar, mas no achou adequada. Suspirou. Angel definitivamente lhe enviava mensagens de aceitao com as belas pernas cruzadas e quase expostas.
Ele disfarava os olhares para as coxas ornadas pela meia preta e sentia-se inquieto.
Ela o encarou. Desejava que Rory no a observasse daquele jeito. Por acaso no sabia o que lhe causava quando seus olhos tinham aquela expresso?
Angel vinha tendo dificuldades para adormecer durante todas aquelas noites e, quando conseguia, mergulhava em sonhos nos quais ele estava presente...
 Rory  falou subitamente.
 O qu?
No sabia se a hora era certa. Se ele j superara o luto. Se a queria ou no. Subitamente, de alguma maneira, no importava mais. Nada era relevante alm de sua necessidade de lhe falar o que, esperava, ele gostaria de ouvir.
 Eu amo voc.
 O qu?
 Eu amo voc  repetiu.  Provavelmente acha que no sei o que  amor, mas Rory, eu sei. Oh, como sei. Voc pode no corresponder a esse sentimento, de fato pode no me querer absolutamente. No sei. Mas eu precisava de que voc soubesse que... Rory?
Ele silenciosamente a fez levantar-se e a abraou.
 Oh, Angel  gemeu.  Minha Angel!
Rory fechou os olhos e sussurrou uma prece de agradecimento. Estava trmulo de emoo. Ela deveria ter reunido muita coragem para lhe dizer aquilo. Falara com fibra, beleza e generosidade.
Angel lhe oferecera o seu amor incondicional. E ele apenas queria faz-la feliz.
 No quer-la? Meu Deus, espere e veja quanto eu a quero!
Com vagar, ergueu-lhe as duas mos e as levou aos lbios, os olhos jamais deixando seu adorvel rosto.
Queria cobri-la de beijos, mas gostaria que estivesse relaxada.
Seria fcil descer o zper do vestido. Fcil demais. Muito simples despi-la com vagar ali, fazer amor com ela sobre o tapete defronte  lareira. Como tantas fantasias amorosas.
Naquela noite, entretanto, no precisava de artifcios. Angel era sua fantasia, e ele a queria de maneira real.
No gostaria que passassem frio mais tarde, quando o fogo cessasse e os dois ficassem tremendo, tendo de correr at o quarto e mergulhar nas cobertas geladas.
Naquela noite ela passaria todos os momentos a seu lado...
 Venha!  sussurrou.
 Para onde vamos?
  sempre voc quem faz as sugestes, Angel.
 Mas nesta noite deixarei tudo por sua conta  respondeu, trmula ao observar a expresso de puro desejo pairando no rosto de seu amado.
Rory a conduziu at o quarto dele, incapaz de esconder seu sorriso de satisfao.
 Por favor, no tenha medo, querida  sussurrou quando comeou a beij-la e despi-la.
Ia fazer tudo muito, muito vagarosamente...
Angel sentiu-se levemente atordoada quando os dois se deitaram nus na cama, e Rory os cobriu. Estava surpresa porque tudo que ele parecia querer fazer era abra-la muito fortemente, beij-la vezes e vezes, com os beijos mais doces que poderia imaginar.
Comeou a toc-la somente quando Angel achou que ia morrer se aquilo no acontecesse, explorando lugares secretos que para sempre seriam somente dele.
A pele de Rory roava a sua, coxa a coxa, seios contra peito. Sentiu seu calor, a sensao de plenitude ao ser conduzida para algo... algo...
Rory estava mergulhado na prpria paixo, sentindo-se como um animal selvagem que precisava ser controlado. Como aquela mulher podia ser to poderosa? O que havia nela? Como podia faz-lo tremer apenas com o toque de seus lbios?
Angel comeou a tatear pela trilha de plos escuros em direo ao abdmen msculo, mas ele a deteve. Ajeitou-lhe as mos atrs da cabea e passou a possu-la de modo agonizante.
Angel sentia-se prestes a se partir em mil pedaos, como se algum encantamento a estivesse deixando sem ar a cada movimento dos quadris de Rory. Estava subindo uma montanha, mais e mais alto at que encontrou o topo e subitamente soube e compreendeu perfeitamente. Perfeitamente.
Soluou o nome dele inmeras vezes e deixou-se envolver pelas palavras de Rory, cheias de amor e deleite.

O luar banhava a cama com sua luz prateada. Angel descansava debaixo das cobertas, todos seus sentidos reverenciando a glria do que acabara de acontecer.
Seus corpos estavam entrelaados, midos e quentes. Sentia a respirao de Rory em seu pescoo, o cheiro de seu perfume. Os dedos enormes descansavam em seu rosto, e Angel virou a cabea bem levemente, beijando-os e lambendo-os para sentir o sabor de cada um.
Ele riu, bocejou e apoiou o peso no cotovelo para poder fit-la. Seus olhos cintilavam de prazer e satisfao.
 Ol  falou matreiro.
 Ol  respondeu, mas no poderia deixar tudo to sem palavras, como se ele no tivesse lhe dado o maior prazer do mundo.  Rory...
  meu nome  murmurou.
 Foi...
As palavras lhe fugiram, e ela deu de ombros. Todas as palavras que conhecia pareciam to inadequadas. Tentou novamente.
 Foi...
Ele lhe deu um sorriso despreocupado.
 Eu sei o que foi  concordou e ento seu sorriso desapareceu.  Eu fui um amante egosta na Irlanda...
 No!
 Sim, eu fui  contradisse-a, os olhos cheios de arrependimento.  Nunca aconteceu comigo antes. Aquela sensao de estar completamente fora de controle.
 Foi assim que aconteceu?
Ele assentiu, lembrando-se da sensao enervante de estar totalmente  merc do poder que Angel exercia sobre seu ser.
 E no foi apenas emocional  murmurou, franzindo a testa ao tentar analisar a situao.  Ou mesmo fsico. Foi biolgico tambm. Uma urgncia inconsciente em procriar que me fez querer possu-la.
Seus olhares se encontraram. Ambos estavam emocionados com a honestidade partilhada.
 No temos de conversar sobre isto novamente  Rory falou  porque pertence ao passado. De fato, nem mesmo precisamos falar agora, se voc no quiser, mas...
 No, isso nunca aconteceu comigo antes  admitiu ela.  Nunca senti isso nos braos de Chad, o nico homem com quem me deitei alm de voc. Com ele eu me sentia um fracasso...
Fez uma pausa.
Sorriu para Rory
Ele se apoiou nas costas e observou o teto.
Angel sabia que ia ser difcil, mas que aquilo precisava ser discutido. Apenas uma vez. E ento poderiam colocar o assunto de lado.
 No  que Chad no quisesse me satisfazer  falou com cuidado.  Simplesmente no fazia parte de sua agenda tentar. Lutou muito para me levar para a cama antes de nos casarmos. Era muito excitante a expectativa de satisfazer um desejo por tanto tempo acalentado. Acho que a noite de npcias foi um anti-clmax para ele depois de tanta ansiedade.
Angel hesitou. Chad detestava falar sobre sentimentos, talvez fosse assim que as coisas acontecessem entre homens e mulheres. "Estaria falando demais?" Mas ento olhou bem nos olhos de Rory e soube que seus temores eram infundados.
 Prossiga  ele pediu com suavidade.
 Acho que Chad estava to cego, tinha tamanha vontade de me possuir que no pensou na realidade de estar se ligando a uma mulher sem experincia e a quem ele no amava de verdade.  Sorriu tristemente.  E eu me permiti ser usada como uma espcie de trofu  admitiu.
 Oh, Angel  Rory sussurrou. Encontrando foras na certeza de seu amor, ela prosseguiu.
 O final de nosso casamento j estava previsto antes de ele conhecer Jo-Anne. Por Deus, eu espero que os dois estejam em paz, juntos em algum lugar.
 Espero isto tambm, querida. 
Olhou-a com ternura.
 Eu amo voc  falou Rory simplesmente.
 Sim, eu sei.
 Querida?
 Mmm?
 Voc me falou, ainda na Irlanda, que gostaria que o beb fosse batizado.
Ela sorriu, deliciada.
 Sim, falei.
 Bem, no seria melhor conversarmos com um padre sobre isso?
 Oh, Rory! 
Abraou-o fortemente.
Ficaram deitados, aquecidos, em feliz silncio por um momento, antes de Angel traar a linha dos lbios dele com o indicador, adorando a recm-encontrada liberdade de toc-lo quando quisesse.
 E quanto a voc ter sido um amante egosta na Irlanda... Bem, no foi. Falo de verdade. No estou mentindo, Rory, foi maravilhoso. Eu me senti gratificada por sua paixo e por descobrir minha prpria fora.
Rory sorriu e comeou a acariciar-lhe o umbigo. E mais abaixo.

Murmrios vinham dos bancos da igreja e ecoavam pela imensa construo. A me e os irmos de Angel olhavam uns para os outros, confusos.
O padre lhes lanou um olhar de censura desde o altar.
 Faam silncio, por favor, senhoras e cavalheiros! Como falei, um casamento vai acontecer.
 Santa me de Deus!  exclamou a me de Angel pela segunda vez.  Eu no acredito! Ela est se casando com mais um dos Mandelson. Seu corao ir se despedaar novamente!
 E viemos apenas para testemunhar o batismo da pobre criana, mame  sussurrou seu filho mais velho, Gerry.
 O batismo acontecer imediatamente aps a cerimnia de casamento  declarou o padre.  O casal est pronto?
Angel e Rory trocaram um sorriso secreto. Haviam feito os votos um para o outro em uma fria manh de janeiro na Irlanda. Aquilo tudo era formalidade. Por causa de Lorcan.
Angel lanou um olhar amoroso para seu filho, o filho deles, pois era assim que o queria. Com seis meses de idade, o menino estava sentado no colo do padrinho Lorcan e ficava esticando a mozinha para frente na tentativa de tirar uma pena do chapu de Clare.
O batismo fora arranjado de acordo com as agendas atribuladas de Lorcan e Clare, e eles haviam chegado dos Estados Unidos no dia anterior.
 Quero que Lorcan sinta que tem razes profundas Rory sussurrara para ela reflexivamente certa noite.
 Razes internacionais. Razes aqui e na Irlanda. E agora na Amrica tambm.
Angel compreendia bem. Razes que seriam uma pequena maneira de compensar a perda prematura de seus pais biolgicos.
O bispo ficou muito srio, achando que a seriedade aumentaria a importncia dos votos que o casal estava prestes a proferir. Interiormente, entretanto, estava muito feliz. Absolutamente deliciado.
Um casamento de surpresa, que maravilhoso! Sempre achou ser necessrio um pouco de drama para manter a igreja viva. E haveria uma boa festa depois, na adorvel casa paroquial.
Nos fundos da igreja, Alan Bollier olhava com interesse para uma lista com nomes e correspondentes significados. Trouxera-a porque lera ali que Lorcan era uma palavra irlandesa que significava impetuosidade.
Sorriu. Na Irlanda impetuosidade relacionava-se a orgulho, paixo. Deu uma olhada para Angel, radiante em um simples vestido branco.
Ela pegara o beb dos braos da amiga e o ninava docemente de encontro ao corpo. Subitamente levantou a cabea e fitou o dono do hotel, sorrindo.
Alan Bollier havia lhe relatado que, na manh da partida da Irlanda, Rory lhe confessara que estava apaixonado por ela. Sim, seria realmente uma celebrao irlandesa!
 Achei que Rory no alcanaria seu intento  acrescentara Alan , dada a maneira como agia!
Haviam trocado correspondncias com regularidade, e Alan se deliciara em enviar a Lorcan os pequenos presentes que as pessoas lhe enviavam da Irlanda.
Angel voltou a sorrir para o senhor. 
Alan Bollier retribuiu. Esperava viver tempo bastante para ver a criana virar homem.
Lorcan Mandelson, orgulhoso e passional! 
Com pais assim, como poderia ser diferente?

 


  
DICAS


CRESCENDO E APRENDENDO
Ver a criana crescer e aprender  uma experincia fascinante. Cada fase traz algo novo e recompensador. Ela rola, explora o mundo com as mos, senta-se, engatinha e anda. Depois aprende a falar e refina a coordenao e a destreza. E, quando voc est certa de que o mais emocionante em seu filho foram os primeiros passos, ele passa a mostrar desempenhos mais sutis e menos visveis que a deixam orgulhosa. Nos anos pr-escolares, ele precisa o tempo todo de voc, de seu estmulo para evoluir e de suas reaes para prosseguir ou refazer os processos, e de que lhe estruture as brincadeiras. A criana aprende brincando. Tudo o que ela fica sabendo sobre as coisas, cores e formas,  por meio dos brinquedos e objetos do cotidiano. No restrinja as brincadeiras a certa hora do dia, porque para uma criana tudo  uma infindvel brincadeira. Vestir-se, desempacotar compras, pr a mesa, limpar o quintal, abrir os armrios, jogar objetos no cho, encaixar coisas em buracos e fendas, tudo  uma oportunidade para participar e aprender.

OS PRIMEIROS SEIS MESES
Durante esse perodo voc v seu beb construir uma personalidade real, pronto para recompens-la com sorrisos e gargalhadas. Apesar de haver muitos brinquedos para essa idade, ele precisa, e quer, mais que tudo, a sua companhia. Quando ele estiver acordado, converse e sorria, e reaja s expresses faciais que fizer.  vital nessa fase dar  criana muito estmulo, na forma de coisas para olhar, sons para ouvir e formas e texturas a explorar. Ela no precisa de brinquedos caros: fotografias e cartes postais antigos, espelhos que no sejam de vidro, chocalhos, as roupas que voc veste, tudo serve.

OBJETOS E RUDOS
Com cerca de seis meses, deixe o beb passar parte do tempo em que estiver acordado sentado no nvel do cho, numa cadeirinha acolchoada. (Antes disso, vai adorar ficar deitado no cho, em cima de um cobertor.) Se lhe mostrarem algo colorido e que faa barulho, vai manifestar interesse, agitando braos e pernas. Talvez seja capaz de segurar algo leve que lhe ponham nas mos e logo vai tentar esticar a mo para, desajeitadamente, agarrar as coisas.

APRENDER UM SOBRE O OUTRO
Durante os dois primeiros meses de vida, seu beb no consegue focalizar alm de 25 cm de distncia. Portanto, fique com o rosto bem perto dele, ao falar-lhe, e exagere suas expresses e sorrisos.  esse contato ntimo que ajuda seu beb a tornar-se uma pessoa e mostra a ele o que  construir uma relao de amor.

ROLAR
Em algum momento dos seis primeiros meses, o beb vai aprender a rolar: primeiro, de bruos para de costas, e depois ao contrrio. Isso lhe d um grande sentimento de realizao: por fim comea a fazer seu corpo se mover. Lembre-se de que, mesmo antes de aprender a rolar, ele pode cair. Nunca o deixe sozinho num lugar alto, nem na cama.

APRENDER A SENTAR-SE
Quando seu beb tiver adquirido mais controle sobre seu prprio corpo, coloque-o sentado com almofadas em volta, para ajud-lo a manter o equilbrio e proteg-lo de quedas.

USAR O CORPO
D ao beb a chance de explorar o que ele j sabe fazer com os membros e o corpo. Deitado de bruos, ele poder levantar a cabea e os ombros, bater as pernas e at mesmo equilibrar-se sobre a barriga. Massagear a criana com leo de beb tambm a ajuda a conhecer o prprio corpo.



































SHARON KENDRICK nasceu em West London. J teve uma gama variada de empregos; foi fotgrafa, enfermeira, motorista de ambulncia pelo deserto australiano e tambm viajou pela Europa dentro em um nibus convertido em moradia! A profisso de escritora tem sido a mais animada de todas. Quando no est idealizando novos heris (alguns dos quais baseados em seu marido mdico!) ela cozinha, l, vai ao teatro, escuta msica americana da costa oeste e conversa com seus filhos Clia e Patrick.
